Weby shortcut
4884

Leonard Cohen em silêncio

Atualizado em 31/03/15 09:49.

Já se passaram mais de 40 anos desde que Cohen começou a bradar seus graves gritos sentado em frente a uma Olivetti

Por Fernanda Garcia

  O livro de poemas do cantor e escritor Leonard Cohen fala sobre amor e holocausto

  Imagem: Reprodução

A escritora francesa Marguerite Duras disse, certa vez, que escrever é também silenciar-se, é um grito sem ruído. Leonard Cohen, no entanto, o eterno “Kafka do Blues”, como apelidou Bob Dylan, gritou tanto ruidosamente, com sua voz grave e acordes de folk, quanto no ato de calar-se da escrita. E antes da música, vieram as palavras.

 

O cantor e escritor canadense voltou sua atenção à música somente depois dos 30 anos de idade, já consagrado como autor de livros de poesia e romances. O primeiro contato de Cohen com a literatura foi aos 9 anos, após a morte de seu pai, quando escreveu seus primeiros versos. Ainda muito jovem, graduado em letras e integrando grupos de recitais que reuniam poesia e jazz, publicou seu primeiro livro de poemas, Let Us Compare Mythologies, em 1956.

 

Quatro anos depois, refugiou-se em uma das ilhas Sarónicas, na Grécia, onde viveu um grande amor com Marianne Jensen, que o inspirou em muitas de suas canções. Ainda em terras gregas e azuis, Cohen escreveu dois romances, The Favorite Game (1963) e Beautiful Losers (1966), e três livros de poemas, The Spice Box of Earth (1961), Flowers for Hitler (1964) e Parasites of Heaven (1966).

 

De acordo com o escritor Fernando Koproski, cuja tese de Mestrado incluiu 13 poemas traduzidos do livro Flowers for Hitler, em suma, as temáticas principais abordadas na obra de Leonard Cohen são o amor, tal qual o sentimento é por ele vislumbrado, e o holocausto, as atrocidades praticadas durante o regime nazista, reafirmando a identidade judaica do autor, que vem de uma família judia de origem polonesa.

 

Flores para Hitler

 

É talvez em Flowers for Hitler que o contraste amor-violência, mencionado pelo escritor Fernando Koproski, esteja mais visível. O próprio título da obra expõe duas contradições que, curiosamente, estiveram muito próximas durante o período da II Guerra Mundial: Hitler e a sensibilidade. O líder nazista foi um artista frustrado, colecionando uma série de quadros pintados por ele com paisagens, retratos e, inclusive, flores.

 

Segundo Koproski, “a consciência do sofrimento e da morte de milhares de judeus na época de sua infância intensificaria sensivelmente o seu sentimento de perda, o qual se tornaria um tema recorrente, desenvolvido de forma singular na obra do futuro escritor”. Seus poemas, escritos com carne e sangue, como afirmou o próprio Cohen, exploram as cicatrizes da guerra misturadas às outras cicatrizes universais: o amor, a infância, a vida adulta, os duros desafios do cotidiano.

 

Em 2012, Leonard Cohen foi publicado pela primeira vez no Brasil com The Favorite Game (em português: A Brincadeira Favorita), seu romance de estreia escrito há mais de 40 anos. Mas o cantor e também poeta, hoje com 80 anos de idade, continua nesta jornada, publicando, compondo, fazendo shows e dividindo-se entre silenciar-se e dar voz ao silêncio. 

 

Fonte: FIC

Listar Todas Voltar