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Jornalista empreendedor: saída para mercado saturado

Atualizado em 02/06/15 09:34.

Em 2012, a Universidade Federal de Santa Catarina, em parceria com a Federação Nacional dos Jornalistas, a FENAJ, elaborou a pesquisa de âmbito nacional, Quem é o jornalista brasileiro?

Entre os resultados, está que cerca de 50% dos jornalistas que atuam fora da mídia, principalmente em assessoria, não possuem carteira assinada.

Esse número é dividido entre os que se autodeclararam como freelancers (6%), prestadores de serviço (14%), pessoa jurídica (5%) e outros (36%) .

É neste número que se encontra o jornalista Leandro Resende que há dez anos trabalha em um jornal impresso, mas também tem empresa que presta serviço de assessoria de comunicação.

Ele conta um pouco sobre sua área, os desafios desse mercado e as possibilidades que o jornalista pode encontrar.

Ilustração         

    Ilustração. Fonte: Blog Investir e Empreender

 

Jovens Jornalistas: Analisando os dados da pesquisa, o que eles apontam?

Leandro Resende: Uma mudança muito grande na profissão do jornalista. Há quinze anos, e isso é uma análise minha, 80% dos profissionais eram CLT. Os outros 20%, eram divididos entre freelancer (que é, na verdade, um bico, não emite nota fiscal) e pessoa jurídica que trabalhava com comunicação.

Hoje a realidade mudou completamente, e tende a mudar mais. O jornalista deixou de ser um funcionário de cadeira, claro que ainda existe, mas a proporção é que vai mudar. O profissional deixou de ser aquele que chega, senta na frente do computador, obedece um horário, sai e vai jantar com a família.

Esse profissional está dando lugar, gradativamente, para um outro que tem cabeça de empreendedor. Uma parcela já sai da faculdade procurando desenvolver startup ou outros projetos de comunicação que não sejam vinculados à veículos tradicionais, que estão perdendo seu charme.

 

JJ: E por que isso ocorre?

Leandro: Eu acho que em Goiás é porque o conteúdo desses veículos desqualificou demais. Nos últimos dez anos, o jornalismo bom  foi se limitando a poucos locais. Hoje, o jornalismo que o recém-formado quer fazer, que ele acredita quando sai da faculdade, acaba sucumbindo, porque ele chega em um veiculo de comunicação sem expectativa.

Muitas vezes ele está indo sem expectativa, mas vai porque precisa de carteira assinada, salário, décimo terceiro, férias com família e talvez um dia comprar uma casa no ‘Minha Casa, Minha Vida’ e ficar feliz.

Esse jornalista que vai pra redação assim, ele se frusta, porque o veículo vai sugar dele o máximo possível. Muitas vezes, não vai ter um líder na redação pra ajudar ele a ser um bom jornalista.

 

JJ: E esse processo muda em que a realidade do jornalismo?

Leandro: O negócio de jornalismo está saindo das mãos dos grandes meios e, aos poucos, também, se redividindo. O Latifúndio está aos poucos se tornando minifúndio, ou seja, pequenos negócios de comunicação estão dando certo.

É claro que existe muitos riscos, porque surge muita gente que faz serviço ‘lambão’ que não tem competência. É preciso uma organização para que o mercado não sofra com tudo isso.

 

JJ: Mas esse mercado empreendedor é específico para assessoria de imprensa?

Leandro: Hoje, cada vez mais, o jornalista é um comunicador . Não apenas um assessor, ele tem que dominar tudo, tem que ser um bom cara em mídias eletrônicas digitais, não é só Facebook.  Dominar a plataforma impressa, produzir a revista, entregar. Cada vez mais ele vai dominar todo o processo.

Quanto mais ele tiver qualificações, se for um bom fotógrafo,  tiver um bom texto, diagramar, mais terá chances de se remunerar melhor.

Pode soar mal perante os outros profissionais, mas isso não precisa ser sempre. Mas se for um produto relativamente simples, o jornalista tem que saber.

 

JJ: Quais são as mudanças mais perceptíveis dentro das redações?

Leandro: As redações viraram uma gangorra, troca-se muito.  O cara que entrava pra ficar 20 anos, hoje entra e fica três.

A geração nova não quer ficar sentada na cadeira, quer ficar dois anos e depois ir pra Irlanda, mas um tempo e ir fazer um curso em São Paulo. Não está mais se apegando e isso ocorre por vários motivos.

Primeiro, porque o jornalismo, principalmente, o impresso, perdeu o glamour.Segundo, porque não tem mais líderes lá dentro para o cara se espelhar e querer aprender algo estando ao lado deles. E claro, também porque pagam muito mal.

 

JJ: E qual conselho você dá para o jornalista que quer ser empreendedor?

Leandro: Mesmo tendo citado as dificuldades, acredito que todo recém-formado deve passar pelo menos três anos dentro de uma redação. É a melhor pós-graduação.

É no suor da redação que você vai entender o que é comunicação, como a informação chega e como é tratada antes de se publicar. Descobrirá o lado bom e ruim.

Deve também ser um gestor da sua carreira. Mas para isso ele tem que ser muito bom, igual em um time de futebol, há vários em campo, mas três se destacam mais.

Para isso, o jornalista tem que ter uma cabeça diferente do professor dele e também do colega que se formou há quatro anos. Ele tem que pensar digitalmente e empresarialmente.

Ele tem que tocar a carreira planejando, mesmo que para longo prazo, em novas formas de trabalho.

 

JJ: A pesquisa traz que esse grande número de jornalistas sem carteira assinada sinalizam uma precarização do trabalho. Como você vê isso?

Leandro: Há uma diferença entre aqueles que prestam serviços para grandes veículos e os que trabalham como empreendedor. Quando você é dono do seu negócio, você corre riscos. Pode até pensar que não terá férias de 30 dias, décimo terceiro salário, peru no fim do ano, mas pode ganhar muito mais.

Quando eu trabalhava apenas como CLT ganhava cinco moedas, por exemplo. Isso há dez anos, com o tempo, a inflação vai comendo seu salário, o custo aumenta e, em proporção continuo ganhando as mesmas cinco moedas.

Com o meu trabalho como PJ, ganho em torno de 25, quatro ou cinco vezes mais do que na redação.  Não é todo mundo que consegue desenvolver seu lado empreendedor. Cada um tem um estilo e na carreira também é assim.

Falo do meu exemplo para mostrar que muitos profissionais que escolheram a opção só de redação estão frustrados com medo de perder o emprego e não sabem o que fazer.  

O profissional tem que se arriscar a ser um vendedor do seu produto, com dignidade e seriedade que condiz com o que aprendeu na academia. Não precariza se todo mundo tiver o mesmo intuito. 

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