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A música obscura de Naire

Atualizado em 02/06/15 09:33.

Artista goiano radicado no Rio conta os desdobramentos de sua carreira

Naire

por Leon Carelli

Nesta matéria do portal Jovens Jornalistas, você vai conhecer o trabalho do cantor Naire, 71 anos, que em 1974 lançou seu único disco. Ultimamente, com a explosão da internet, seu álbum, ainda não editado em CD, voltou a conseguir destaque por compartilhamentos em blogs de colecionadores de vinil. A pouca informação disponível sobre o álbum e seu autor em meios de comunicação têm criado uma áurea mítica em volta do disco, tornando a foto da capa o único contato do público com a figura Naire. Hoje, no Rio de Janeiro, ele trabalha com músicas terapêuticas e guarda um acervo de mais de 100 canções, que incluem trabalhos inéditos do compositor Paulinho Tapajós, falecido em 2013. Nesta edição entraremos em contato com as histórias por trás da produção desse misterioso disco e com o resgate histórico da carreira meio escondida desse artista.

 

 

Jovens Jornalistas: Qual foi sua impressão do cenário musical de Goiânia nas décadas de 1950 e 60, quando você morava na cidade?

Naire: Quando eu morava em Goiânia não tinha quase nenhuma movimentação musical. Compositores só os muito antigos, seresteiros, mas isso não é do meu tempo.

 

JJ: Quais foram seus motivos pra sair de Goiânia?

Naire: Minha intenção era estudar arquitetura em São Paulo. Fui para lá em 1965. Eu morava em um lugar chamado Maria Antônia. Ali ficavam os barzinhos e todo o esquema intelectual e musical acontecia. A gente ia pra um bar chamado Quitanda. Chico Buarque, Maranhão, Edu Lobo, um pessoal frequentava aquele lugar.

 

JJ: E depois de São Paulo, o que te levou ao Rio de Janeiro?

Naire: Em 1969, fui para Goiânia me apresentar em um festival de música chamado Comunicasom. Eu estava em alta por ter conquistado o terceiro lugar em um festival da Tupi com a música "Senhora de Luar". Nesse meio tempo conheci o Tibério Gaspar. Fizemos juntos a música ‘Companheiro’. Foi ele quem me chamou pra ir morar no Rio.

 

JJ: Você e o Paulinho Tapajós foram parceiros na maioria das canções do seu disco. Como esse processo aconteceu?

Naire: Conheci o Paulinho em 1971, durante uma corrida na areia de Ipanema. Tínhamos o costume de correr por ali. Na época ele estava no auge da carreira. Começamos a nos encontrar mais vezes, pra compor. O LP de 74 saiu junto com outro do Paulinho Tapajós. Gravamos nas mesmas sessões. Tinha o pessoal do Azymuth, Pascoal Meireles, e pessoal que era a nata da música naquele momento.

 

JJ: Qual o impacto que o lançamento do seu disco trouxe para a sua vida?

Naire: A princípio eu não fiquei sabendo de nada. Hoje, com a internet é que eu estou tomando consciência. Eu tenho fãs no Japão, na Suécia e já viram meu disco na Alemanha. Nunca tinha visto nem as críticas positivas sobre ele. Foi com a internet que comecei a sacar o sucesso que eu fiz e não sabia que tinha feito. Naquela época lançavam o artista no mundo inteiro. Como não tinha jeito de ficar sabendo, não ganhávamos nada e nem sabíamos que estávamos fazendo sucesso. Deve ter saído muito mais discos do que me contaram e me pagaram.

 

JJ: E a música terapêutica? Como ela entrou na sua vida?

Naire: Depois do lançamento do disco, fundei a Lira Produções Artísticas, que fazia a parte sonora de campanhas publicitárias. Em 1996, 16 anos após a fundação da Lira, me convidaram para elaborar a parte musical de um stand de venda de produtos naturais. Quando eu botei a música pra tocar, todo mundo ficou impressionado. Esse ano eu ganhei todos os prêmios de publicidade. Comecei a receber telefonemas do Brasil inteiro de gente pedindo aquela música pra meditar, relaxar, essas coisas. Foi quando decidi estudar sobre música terapêutica, pois não sabia nada sobre o assunto.

 

JJ: Existe algum projeto futuro de Naire com novidades musicais?

Naire: Hoje com 71 anos me sinto no período mais criativo da minha vida. Tenho mais de cem músicas inéditas, que vou trabalhando de forma caseira no ipad, e divulgo no youtube. Agora, nessa idade, estou querendo achar um caminho pra não deixar meu trabalho apenas guardado dentro de mim mesmo. Saber que meu disco é escutado me motivou muito. O que é difícil é a questão financeira.

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