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Por que chorei a morte de Fernandão

Atualizado em 02/06/15 02:43.

Há quase um ano, Fernandão me fez voltar a ser torcedora. E eu ainda agradeço

Caroline Almeida

 Por que chorei a morte de Fernandão

(Reprodução)


Sábado, 7 de junho de 2014. Quase um ano atrás, caíam dos meus olhos lágrimas que eu jamais imaginei derramar. Alguém que não sabia da minha existência era o merecedor da minha tristeza. Chorei, mas não sozinha. Uma legião de admiradores sentia algo que não era possível explicar. O adeus, que já havia sido um “até logo” em outros momentos, seria permanente. Fernandão nos deixava para sempre.

Me lembrei do dia 2 de dezembro de 2007. Serra Dourada lotado para ver o último suspiro de um time que poderia ser rebaixado ou deixar o arquirrival de quase todas as torcidas do Brasil ir em seu lugar. Em campo, Goiás e Internacional. De um lado, vestindo a camisa branca e vermelha que um dia foi a cor do maior adversário do time que o revelou, estava Fernandão. Do outro, as vestes verde e brancas pediam ao outrora ídolo que tivesse piedade comandando o seu novo esquadrão, fosse pela memória que tinha do gramado do gigante de concreto ou pelo desejo latente que qualquer apreciador de futebol não-alvinegro possuía pelo rebaixamento do Corinthians.

Eu não me preocupava em saber quais motivos levariam Fernandão a tentar impedir o descenso do Goiás, mesmo que outro escudo estivesse sendo ostentado em seu peito. Eu apenas quis que ele o fizesse. Pedi que, ao menos naquela tarde, o camisa 9 não fosse tão eficiente como sempre foi, como alguém que se permite dar um jeitinho para ajudar um amigo. Naquele domingo, eu só desejava um pouco menos de categoria e elegância no futebol do nosso antigo artilheiro. E pedi para que toda a equipe colorada o seguisse.

A bola rolou e, aos 12 minutos do primeiro tempo, os visitantes gaúchos calaram o gigante de concreto. A rede balançou quando Orozco mandou para dentro do gol, de cabeça. Parecia estar sacramentado o rebaixamento do time esmeraldino. Um gol que Fernandão comemorou. E eu o crucifiquei. Como teria coragem de festejar o tento que confirmava a decadência daqueles que estiveram no início de tudo que ele havia se tornado? Me chateei. Ali, pra mim, Fernandão se tornava traidor.

Mas as coisas foram mudando. 19 minutos depois, Élson deixou tudo igual no Serra e meu coração explodiu. E, segundo reza a lenda, foi ali que o Inter “tirou o pé”. Todos estariam unidos pelo descenso corintiano, principalmente pela lembrança do polêmico título dos paulistas em 2005. Mas eu não me importava. Fosse o Corinthians ou qualquer outro, eu só queria o fim do suplício alviverde. Fim que demoraria ainda mais a chegar.

No intervalo, 14 minutos depois do gol de empate que aqueceu até o mais gélido e desacreditado dos corações esmeraldinos, eu já gostava do Fernandão de novo. Não que fosse tão fácil assim reconquistar minha simpatia, mas, a todo momento, eu me lembrava do gol de bicicleta marcado naquele mesmo gramado, contra o Bahia, na Série B de 99. Me lembrava pois havia sido umas das cenas que mais revi durante toda a minha “formação” futebolística. Um gol de placa que sempre era relembrado nos programas esportivos e nas conversas por aí. E eu me martirizava por ter apenas seis anos à época e não me lembrar do campeonato daquele ano.

E assim veio a etapa final. 30 minutos se passaram quando chegou a informação de que o Corinthians havia acabado de marcar o gol de empate contra o Grêmio, no Estádio Olímpico. A igualdade no placar não servia mais ao Goiás. Mas a vitória não vinha. 45 minutos não bastaram e o jogo foi além. Aos 57, veio um gol de pênalti que só estufou a rede na terceira repetição da cobrança. Alívio. Em casa, de joelhos e com as mãos para os céus, agradeci.

A bola ainda rolava no estádio gaúcho, mas a razão, que deveria me fazer esperar pelo outro apito final, já havia deixado de existir para dar lugar à emoção. E logo veio a confirmação. Mais do que confirmada a permanência esmeraldina na elite, estava confirmado o meu apreço por Fernandão. Foi ele. Pra mim, não havia sido pelos pés de Élson que a salvação tinha chegado. Assim como uma criança que acredita que é o papai noel quem traz os presentes, havia sido o atacante colorado-mas-eterno-alviverde o responsável pela vitória. E assim seria pra mim, mesmo que ele nem em campo tivesse entrado. Típico comportamento de torcedor irracional, com o perdão da redundância.

Naquele dia, porém, descobri que, mais do que esmeraldina, eu era fã de futebol. E mudei completamente após aquele domingo, dia a partir do qual eu regi toda a minha vida por esse esporte. Entre altos e baixos, cheguei ao que sou hoje. Mas, antes de hoje, passei por 2009.

Quem não se lembra da boa campanha do Goiás no primeiro turno do Campeonato Brasileiro daquele ano? E a campanha pela “estrela dourada”? E quem não se lembra, mais ainda, da volta de Fernandão à Serrinha? O bom filho havia retornado à casa, para enlouquecer toda uma torcida. Mas não por muito tempo.

Envolto em um período conturbado fora das quatro linhas, o alviverde goiano deu adeus ao sonho de trocar a cor da estrela da camisa. E a culpa era do Fernandão, diziam. Era do atacante que chegou ao Serra Dourada de helicóptero, com uma festa que, dizem, não merecia. Culpa que se tornou ainda mais dele quando, em 2010, deixou os gramados goianos para ir jogar no São Paulo. Ali, a decepção de boa parte dos torcedores esmeraldinos virou rancor. Mas não a minha, se é que me decepcionei. E se não sei dizer sobre a tristeza daquela época, sei contar sobre a de agora. O camisa 9 se foi.

Há quase um ano, a torcida do Goiás voltou a reivindicar a posse do ídolo, numa disputa com os colorados, misturada com uma boa dose de saudade que quase se veste de culpa. E eu sinto. Mais do que voltar à memória dos torcedores como ídolo, Fernandão conseguiu, naquele sábado, me fazer voltar a ser torcedora. E eu ainda agradeço.

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