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Por baixo da lona

Atualizado em 19/05/15 09:20.

Apesar das poucas opções, o circo exerce hoje influências sociais na cultura goiana  

Por Ana Carolina Jobim

 

Circo

Foto: Layza Vasconcelos

 

“O espetáculo não pode parar”, canta Chico Buarque em Piruetas. Foi assim que o cantor preferiu homenagear o circo, que surgiu há séculos como forma de entretenimento e que, após constante transformação, hoje pode ser também cenário para grandes lições. O Circo Social, por exemplo, hoje é agente transformador da sociedade goiana, modificando o futuro de crianças.  

Em Goiás, sabe-se que a história teve início quando circos tradicionais de outros centros urbanos resolveram se aventurar pelo interior goiano, trazendo uma magia inédita aos moradores dessas regiões. Trazido ao Brasil pelos ciganos, o circo trouxe em si essa característica de interiorização, como se não pudesse ser exposto a grandes públicos e tendo que começar “pelas beiradas”. 

Apesar desse caráter minoritário tido no começo, hoje existe boa relação entre o circo e os goianos. Devido as poucas opções de entretenimento do estado, a chegada de um circo sempre causou curiosidade na população. Lucas Nunes, hoje o como palhaço Batatãolembra dos espetáculos durante a infância e garante que eles o ajudaram na escolha da profissão. De acordo com ele, a vinda dos circos influenciou “[...] não só na minha infância, mas na de várias outras pessoas com quem eu converso.” – diz. 

E não é só quem assiste se vê gratificado durante um espetáculo circense, o outro lado também ganha. “O prazer de vestir um figurino, de fazer uma maquiagem de palhaço, das crianças olharem para gente e se divertirem... Eu acho isso importante no circo [...], as crianças terem acesso ao circo, terem esse acesso direto a cultura. A sociedade hoje necessita disso. A mídia hoje impõe uma cultura e menospreza outras.”, fala Davi Ferreira, integrante do Circo Laheto, que já esteve dos dois lados: foi aluno e hoje é artista. 

 

Circo social e sua influência 

Em Goiânia, o circo hoje possui uma influência muito mais social do que cultural. Existem atualmente três escolas de circo em atuação que formam artistas e profissionais circenses. Nessas escolas, que fazem um trabalho social, crianças e jovens aprendem artes circenses como: malabarismo, ilusionismo e a arte da comédia. A própria linha de formação praticada nessas escolas é chamada de Circo Social no meio. 

Pioneiro nessa modalidade o Circo Laheto, fundado por Maneco Maracá e Seluta Rodrigues, é uma das escolas que mais contribuem para continuidade dessa tradição no cenário goiano hoje. A escola, juntamente com a Secretaria da Cultura, comanda um projeto que atende a crianças carentes e em situação de risco, buscando promover  através do circo, principalmente das técnicas circenses, um trabalho de formação humana pensando a solidariedade, a ética e os valores humanos, tentando levar isso para as crianças.”, diz Lucas Nunes, ex-aluno e hoje educador. 

A própria influência na cultura goiana se dá pelos projetos que as escolas desenvolvem e pelos festivais dos quais elas participam. Segundo conta Seluta Rodrigues “[...] hoje dificilmente tem um festival ou alguma agenda cultural em Goiás que não tenha circo. A influência vai caminhando. Existem em Goiânia outras escolas (além da Laheto) como o Loninha, que é no Basileu França; existe a escola no bairro Dom Fernando, que é da PUC [...]. Portanto, essa influência que era pequena está cada vez maior.”. 

Houve também uma transformação do espetáculo em algo mais estético, com menos poesia do era antigamente, o que contribuiu para a queda no interesse do público. E as escolas de circo assumiram hoje esse papel resgatar a poesia, a magia que o circo tradicional tinha e hoje não consegue mais transmitir. “Pode entrar de tudo dentro do circo. O espetáculo é de variedades, ele é o espaço onde a cultura está em ascensão, onde vale tudo. Todas as coisas que estão acontecendo no momento são possíveis de se colocar dentro do espetáculo. E essa é uma das influências na cultura.”, aponta Lucas. 

Apesar de discriminado por suas origens ciganas, o circo vem vencendo desafios e conquistando aqueles que participam e assistem. A própria diretora pedagógica do Circo Laheto admite: “A arte de uma forma geral é desvalorizada. E o circo, que tem uma herança discriminatória é mais ainda. Como diz Maneco Maracá: ‘O circo é o primo pobre da história. ’. Mas aos trancos e barrancos nós vamos conseguindo sustentar uma equipe que vive do circo.”.  

Fonte: FIC

 

 

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