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Pelo direito de não querer se dar bem

Atualizado em 18/05/15 15:12.

Jovens promissores, fazer jornalismo e coleção de fracassos

 

Por Fernanda Garcia

 

Hoje descobri mais uma vez o grande mal da juventude: quando mil coisas incríveis se passam em nossas cabecinhas justamente em momentos de impotência. Não conseguir realizá-las por simples preguiça, tédio ou mesmo incapacidade. Os dias em uma comunidade cigana de Ipameri que não irão acontecer, o perfil de uma travesti apaixonada que não será escrito e o contentamento com as migalhas, sempre aí. 

Talvez essa predisposição para o ócio seguido de culpa seja maior em meu círculo de amigos e cometo aqui o erro de incluir alguma parte da comunidade sub-30 na triste classificação.  A verdade é que minhas manhãs têm sido uma coleção de adiamentos e a torcida (sem nenhuma identificação política, o que é lamentável) para uma greve nas universidades de "pelo menos uma semana", diz Ana.

Semana passada deixei a tela do notebook descansar na seguinte manchete: "Com apenas 6 anos, menina cria marca de curativos que já rendeu seu primeiro milhão". Não sei se fico feliz pela garotinha de nome impronunciável ou se abro um sorriso amarelo para a geração startup que esfrega na cara dos que estão do lado de lá um colossal aprenda-a-se-dar-bem-na-vida.

Acontece que a minha concepção de se dar bem parece ser um pouco diferente da estabelecida. Se dar bem é acompanhar o dia do tiozinho que compra ouro no centro ou passar o sábado em Anápolis para procurar uma senhora vidente que não cobra e lança previsões mais confiáveis que a maioria das previsões. 

É engraçado porque no curso de jornalismo parece ser um fenômeno especial a diferença entre as definições de sucesso. Como se estivesse escrita a palavra fracasso no diploma dos dez por cento da turma que não engata na carreira televisiva. Como aqueles para quem sucesso é não deixar seus projetos menos glamourosos serem massacrados.

Pros muito desesperançosos, compartilho da ideia de que não ter perspectiva nenhuma é ainda ter alguma coisa e, com certeza, mais reconfortante do que fundar uma startup antes dos dez anos de idade.

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