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Arte no caminho

Atualizado em 18/05/15 12:18.

Apreciação e experiência nas artes plásticas ao alcance do olhar

Por Adriana Rodrigues

05/05/2014

balanço

Foto: Caroline Mendonça

 

Como todos os dias, subi a Avenida Esperança - sentido Residencial Alice Barbosa/Itatiaia - em direção ao Campus Samambaia. Os pensamentos flutuavam como as nuvens lá no céu. Mas algo subitamente me chamou a atenção. Um muro. Um mundo. Ao olhar para a esquerda, para o lado de baixo da Avenida, o muro conversou comigo e me fez refletir. E assim o faz com quem, ao menos por um instante, exercita o olhar para além das fronteiras do seu eu.

De longe se lê um recado que diz que a maldade e a ignorância está na cabeça das pessoas. Tudo começou por aí. No entanto, no muro não há uma única palavra. Sob um céu de azul vívido e nuvens brancas, uma bonita gaiola feita de contornos faciais aprisiona um pássaro de coloração amarelo-alaranjado no peito e um tom de marrom claro por todo o minúsculo corpinho de rabo verde-acinzentado e pontas amarelas. O criador acha um absurdo, estar cativo atrás de grades feitas para punir, o ser que não merece castigo nenhum.

Isso ele me disse em sua casa/ateliê, onde mora e pensa no mundo criado e a criar. O portão azul desbotado se abre a uma vereda de concreto contornada por árvores que levam até a casa. Lá dentro há tintas e pincéis por todo lado, além de outros instrumentos de solda, para entalhar na madeira e no acrílico; inúmeros apetrechos para fazer arte no mundo e do mundo, arte.

 O lugar é bem iluminado, as entradas de luz no teto foi o dono da casa mesmo quem criou, assim como a escada de madeira que leva ao andar de cima, onde as criações a óleo são feitas. Na parede onde está a porta de entrada, um grande espelho aprofunda o ambiente. Nas outras paredes, há feituras do criador realizadas em diferentes períodos da sua vida: rabiscos, formas, cores e abstrações em tela e caracóis, gatos, cavalos e pessoas entalhados na madeira.

Ao som do jazz, que toca na TV sintonizada numa rádio, Pirandello, o artista por trás do muro, conta que pensou em executar aquela obra da Avenida Esperança com objetivo de despertar nos transeuntes a sensibilidade para a beleza das coisas da vida; só que de um modo lúdico, colorido e por que não pela perspectiva do surreal.

Olhando para o muro, a gente volta a ser criança, sobe pelos degraus da casa na árvore, que apresentam sinais do tempo mas não perdem o encanto, e vamos de encontro ao casal sorridente na janela da copa. Pássaros, borboletas e flores enfeitam a árvore. Sem perder tempo, descemos para um galho e no balanço brincamos, vislumbrando ao longe uns castelinhos encobertos por uma pequena floresta... ventinho bom no rosto, que leva ao nariz o cheiro do verde do redor.

A liberdade se mostra no voo, dos peixinhos amarelos acompanhados de bolhinhas que saltam do aquário da sala e nadam pelo ar, do balão multicolor que viaja pelas nuvens, da pessoa com asas de borboleta que parece tocar o céu- ou será que é o alter ego do pássaro preso na gaiola ou a própria contradição do homem livre e o pássaro preso ou sonho infantil de voar? Pode ser o que a nossa imaginação for capaz de criar.

A liberdade também está no prazer de um passeio de bicicleta com o cachorro ou de barquinho de papel que navega num riacho saído das nuvens de água claras sem fim ou na cabeça de um elefante azul com bolinhas amarelas e vermelhas, onde posso peregrinar tocando flauta, sem sair de casa.

Ao escurecer e as luzes se acenderem, na sala de parede azul pincelada de rosa e piso xadrez, um palhaço mostra os dentes da boca de tapete amarelo, azul, vermelho e preto. Da casinha na fina lua quarto crescente, acho que alguém tudo observa.

A pintura no muro, que também é parede, naquele trecho da Esperança, atrai os olhares de quem vê de longe, mas cativa-nos a aproximar e ver de perto os detalhes e minúcias significativas. Como as florzinhas espalhadas pela relva verde, os cogumelos embaixo da casa na árvore, o desenho no muro/rodapé da sala, o sapo no último degrau da escada, a maçã e o jarro transparente de flores, os furinhos no sofá da sala, um prego e um pássaro azul solitários.

A arte, como diz Pirandello, permite transformar a realidade, ressignificá-la. É água, mas ao mesmo tempo é céu, é interior, mas pode ser exterior. Para ele, a realidade é limitada, na arte, porém, se extrapola e se cria um universo paralelo. O artista viu na intervenção urbana- paredes, muros e árvores- um meio de popularizar a arte, de possibilitar às pessoas o acesso à criação sensível humana da pintura, sem precisar ir a uma galeria.

Muitos param diante do muro, uns fotografam, comentam. Outros não enxergam. Sigo o meu caminho em direção ao campus Samambaia, mas agora já não sou a mesma.

  • Confira o vídeo com telas feitas por Pirandello

 

 

o muro

 Pintura em muro na Avenida Esperança (Foto:Caroline Mendonça)

 

esperança

O muro pintado se encontra em uma área verde da Vila Itatiaia

(Foto: Adriana Rodrigues)

 

ptar       arvore

 

bicicleta

 

             peixe         

 

voo

         

balão

Fotos dos detalhes da pintura: Caroline Mendonça

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