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Quando paixão e trabalho se encontram

Atualizado em 28/04/15 10:20.

Jornalista formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Paula Parreira fala sobre como o esporte deixou de ser um hobby para se tornar profissão, os desafios de ser jornalista e o papel da mulher no Jornalismo Esportivo


Na infância e na adolescência, praticava vôlei e natação. Pelo apreço às piscinas, quis até ser nadadora. Na escola, o gosto por esportes a levava a disputar, nas olimpíadas escolares, de handebol a salto em altura. Hoje, ainda vê tudo isso bem de perto, mas por um outro ângulo. Jornalista formada em 2003 pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Paula Parreira, de 32 anos, é repórter e subeditora do jornal diário O Popular. Natural de Itumbiara, no interior de Goiás, ela escreve sobre diversas modalidades esportivas e mantém, de fora das quatro linhas, a paixão que a fez escolher o Jornalismo.


Por Caroline Almeida


Jovens Jornalistas: Desde quando trabalha com Jornalismo Esportivo?

Paula Parreira: Desde abril de 2004. No Diário da Manhã entre 2004 e 2007 e no O Popular desde 2007. Trabalhei como free-lancer para a revista Placar e para o jornal Lance!. Gostava tanto de praticar esportes que, em olimpíadas escolares, me inscrevia em qualquer coisa que aparecesse: salto em altura, salto em distância, 100 metros rasos, handebol, futsal. Escolhi a área esportiva antes mesmo de escolher Jornalismo. Durante a faculdade, busquei meios de realizar o sonho de trabalhar com isso. Me encontrei muito na Rádio Universitária, no Doutores da Bola e no Banquete Esportivo.

JJ: Sua paixão por esportes te levou ao Jornalismo. Como você avalia essa escolha e o caminho traçado por você desde 2003, quando se formou?

PP: A escolha foi acertada. Sinto prazer no que faço. Escrever sobre esporte é o que gostaria de continuar fazendo sempre. Na minha trajetória profissional, passei por dois jornais diários e colaborei pra revistas e jornais de fora do Estado. É um caminho legal, mas o mercado de impresso anda cada vez mais difícil e restrito, por motivos óbvios. Muitas demissões e não dá pra saber muito qual rumo tomar e aqui incluo tanto jornalistas quanto empresas.

JJ: Quais objetivos, dentro da profissão, você já alcançou? Onde pretende chegar?

PP: Como sempre trabalhei em jornais regionais, as grandes coberturas são parciais. Mas trabalhei na Copa do Mundo do Brasil em 2014, cobri um GP do Brasil de Fórmula 1 em 2008, fiz várias vezes o Rali dos Sertões completo. Meu grande objetivo é estar em uma cobertura de Olimpíadas. No futebol de clubes, também gostaria de cobrir uma Libertadores (da América) pelo menos, o que ainda não rolou. Mas estar numa final de Sul-Americana também já valeu a pena.

 A jornalista Paula Parreira na sala de imprensa do Mineirão, durante a cobertura da Copa do Mundo  do Brasil, em 2014.

A jornalista Paula Parreira na sala de imprensa do Mineirão, durante a cobertura da Copa do Mundo do Brasil, em 2014 (Foto de arquivo pessoal)

JJ: O que você destacaria entre altos e baixos do Jornalismo?

PP: É bom saber que o Jornalismo Esportivo não é glamour, não é torcida, não é ser parceiro de jogadores e atletas em geral, nem sempre é publicar o que os outros querem. Você trabalhará em muitos jogos péssimos e competições pequenas para conseguir fazer poucas coisas realmente grandes. Para mim, o jornalista sério aparece nesses momentos, em encarar com responsabilidade e relevância todas as pautas. A pessoa tem que ser boa na final do Estadual e na final da Copa do Mundo, não tem que escolher pautas, não tem que se achar bom demais para uma pauta.

JJ: Quais as suas melhores memórias e seus momentos mais difíceis?

PP: Não sei dizer exatamente quais os momentos mais difíceis. Criar algo novo é muito difícil. Acho que a parte do trabalho que exige ineditismo e renovação é complicada. Isso é vencido com insistência, dedicação e conhecimento de mundo. Na memória, ficam entrevistas que não esperava fazer e deram certo, momentos que marcaram a história do esporte brasileiro e eu estava na cobertura, notícias dadas primeiro, trabalhos aprofundados. Isso sempre dá orgulho.

JJ: Imersa nesse âmbito, como você vê a presença e o papel da mulher no Jornalismo Esportivo?

PP: Acredito que a presença da mulher, quantitativamente, já é quase equiparada à do homem. Falta que essa presença se torne mais comum em cargos de chefia e de decisão em equipes de esporte. Não deveria haver distinção, inclusive em relação às questões de preconceito. Mas é claro que a mulher tem o dever de se posicionar contrária e rechaçar qualquer situação sexista e de desvalorização da mulher. Num mundo ideal, os homens também deveriam fazer o mesmo. Mas entendo que, como mulheres, temos um dever maior, porque somos nós que sofremos diretamente com a cultura do machismo.

JJ: Algo ainda precisa ser mudado no Jornalismo Esportivo com relação à presença feminina?

PP: As instituições de ensino devem se preocupar em excluir qualquer traço sexista de suas disciplinas, cursos e seminários. Já cheguei a ver instituições oferecerem curso de “jornalismo esportivo feminino”. Isso não existe. Um dos conteúdos do curso era “como se vestir para a pauta”. Isso é a banalização do jornalismo e da mulher em todos os sentidos. Conhecimentos sobre os assuntos do esporte não são exclusividade de homens ou mulheres. É urgente a mudança da mentalidade dos profissionais em relação ao que é notícia baseado no público, masculino em maioria. Não é necessário oferecer assuntos que retratem a mulher de forma preconceituosa porque o público é masculino.

JJ: E o que dizer para os graduandos em Jornalismo que vivem entre o amor e o ódio pela profissão?

PP: A satisfação pessoal é grande por trabalhar com o que gostamos. Mas é uma profissão em que queremos muito inspirar e trabalhar com pessoas e assuntos que nos inspiram. Acho que isso é uma ilusão. As pessoas nem sempre vão te valorizar e algumas nos decepcionam. Criar expectativas em relação a pessoas e objetos de trabalho quase sempre é um erro. Investir na formação pessoal é muito importante. Ler literatura é fundamental. Jornalismo esportivo não é só técnica impecável e "entender de futebol". É conhecimento e leitura de mundo, respeito ao seu objeto, ausência de preconceito e, sobretudo, criticidade.

 

Fonte: FIC

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