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Um paradoxo no Ártico

Atualizado em 14/04/15 11:19.

Degelo na região ártica abre caminhos para a exploração de petróleo

Por Adriana Rodrigues

14/04/2015

gelo

Getty Images

 

O derretimento do gelo no Ártico provocado por mudanças no clima, principalmente o aquecimento do planeta, tem favorecido o acesso à região e criado novas rotas marítimas. Isso tem aberto possibilidades para a exploração petrolífera, dando a largada para uma nova corrida por petróleo. Rússia, Canadá, Noruega e Estados Unidosjá entraram em disputa pelo direito de lucrar e empresas petroleiras como a Shell, BP, Exxon, Gazprom e Rosneft, já investem na perfuração de poços de petróleo no Mar do Ártico.

O controverso é que a utilização do petróleo como combustível gera a emissão de gases poluentes, por exemplo, o dióxido de carbono, um dos responsáveis pelo efeito estufa e consequentemente, pelo degelo no Ártico. “As mesmas empresas de energia suja que causaram o derretimento do Ártico agora querem lucrar com o desaparecimento do gelo”, critica a Conselheira de políticas oceânicas do Greenpeace, Nathalie Rey, em entrevista ao canal On-Line do Instituto Humanitas Unisinos.

No final de março, o governo dos Estados Unidos autorizou a concessão de perfuração no Mar de Chukchi, no Alasca Ártico pela petrolífera anglo- holandesaRoyal Dutch Shell. A retomada nos planos de prospecção de petróleo no Ártico reacendeu as críticas sobre o projeto e intensificou as discussões com ambientalistas.

No dia 06 de abril, ativistas do Greenpeace ocuparam uma plataforma de petróleo da Shell no Oceano Pacífico, para protestar contra a exploração de petróleo no Alasca. Segundo eles, a plataforma estava sendo transportada para cidade de Seattle nos Estados Unidos, onde seria preparada até julho, quando começaria a exploração de petróleo nas áreas concedidas a Shell no Ártico.

Riscos

 

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Plataforma em chamas no Golfo do México em 2010 (Foto:  U.S. Coast Guard/Reuters)

 

Com pesquisas na área de poluentes ambientais, combustíveis fósseis e bicombustíveis, o professor Nelson Antoniosi da Universidade Federal de Goiás (UFG), explica que a superfície do Ártico é frágil, pois está sujeita às temperaturas globais; quanto mais frio maior a superfície, quanto mais quente menor a superfície. “Na Antártida há uma base rochosa e o gelo está cima, no Ártico não tem mais nada em baixo”, compara o professor.

Segundo o pesquisador, a exploração de petróleo no Ártico, como em qualquer outro lugar, envolve riscos com a prospecção, pois “existe uma base da plataforma chamada de árvore de Natal, por onde a tubulação adentra ao fundo do leito oceânico, nela podem ocorrem rupturas, como ocorreu no Golfo do México em 2010, esclarece Antoniosi.

Nesses casos, é necessário selar o vazamento, mas de acordo com o professor, numa região como o Ártico, o procedimento pode ser complicado, devido ao difícil acesso ao local e às temperaturas muito baixas, que chegam a menos de 50º Celsius. Além da ruptura de uma tubulação da plataforma, Nelson Antoniosi adverte que pode ocorrer “um derramamento após a saída do óleo da plataforma até a chegada nos navios de transporte. Ou então a própria plataforma pode ter algum problema, como pegar fogo e aí o petróleo se espalhar pelo oceano”.

Em situações assim, é indispensável uma infraestrutura para uma operação de contenção, que envolve bases da guarda costeira, portos de águas profundas, aeroportos e outros recursos, que não estão presentes na região. Antoniosi afirma também que as condições climáticas do Ártico podem complexificar até mesmo o concerto de plataformas petrolíferas, interromperem o funcionamento de máquinas e inclusive impossibilitar a prospecção de petróleo, porque dependendo da temperatura, o mesmo pode se solidificar na tubulação.

Meio Ambiente

O degelo no Ártico já afeta a vida selvagem, impactando na migração, alimentação e padrões de acasalamento dos animais do ecossistema. Outro problema decorrente do recuo do gelo do mar é a abertura de rotas para pesca, oque pode ameaçar espécies nativas. A Conselheira de políticas oceânicas do Greenpeace, Nathalie Rey ressalta que a região ártica desempenha um papel fundamental na regulação do clima global, e é aqui que as mudanças na região poderiam ter graves implicações para o resto do planeta

Além dos graves efeitos das alterações climáticas resultante de combustíveis fósseis, a exploração do petróleo no Ártico pode causar impactos ambientais profundos se um vazamento ou um derramamento ocorrer, uma vez que a biota que vive ali com certeza vai ser atingida. E conforme o professor da UFG Nelson Antoniosi, alguns organismos marinhos, da fauna e da flora da região podem se perder de modo irreversível.

"A região do Ártico sustenta alguns dos mamíferos mais conhecidos do mundo, como baleias, ursos polares e focas, além de milhões de aves residentes e migratórias e uma rica e diversificada vida marinha”, chama atenção a ambientalista do Greenpeace.

Mobilização

"Infelizmente as indústrias de petróleo são ávidas pelo lucro e querem obter petróleo da maneira mais fácil possível;se a temperatura é o empecilho eles vão investir em tecnologia para tentar superar isso", declara o professor Nelson Antoniosi. Para ele, em relação ao Ártico, o que se espera é que haja uma mobilização social e política para que a exploração de petróleo nessa região seja revista; pois não há necessidade de se buscar petróleo numa região como essa, quando ainda tem fontes em outros lugares.

 Antoniosi afirma que a sociedade tem várias maneiras de se mobilizar, mas essa mobilização ainda é pequena, porque as pessoas se preocupam muito pouco com o que pode acontecer, "se houver um acidente no Ártico em todo lugar vai ter impactos", alerta o professor. O pesquisador também enfatiza que não para confiar na mobilização política, porque a maior parte dela pode ser comprada, e o interesse político está aliado ao interesse econômico, "não só as petroquímicas que querem ganhar dinheiro, os políticos também", completa.

 

 

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Ativistas do Greenpeace protestam contra a exploração de petróleo no Ártico em plataforma da Shell no Oceano Pacífico. (Foto: Greenpeace)

 

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