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Poesia: voz e expressão

Atualizado em 31/03/15 10:35.

O segundo sarau Leitura Performática de Poesia foi realizado no III Colóquio Nacional de Letras da Universidade Federal de Goiás no dia 25 de Março , com a proposta “A Voz do Poeta”. Nas palavras de seu organizador, Pedro Moreira, a ideia é “dar voz” aos colegas jovens escritores tanto no sentido de criar oportunidades, quanto de ouvi-los performando seus próprios poemas. Pierre, como Pedro Moreira também é conhecido, cursa Letras (Português e Linguística) na Faculdade de Letras da UFG, tem 25 anos e escreve poesia desde os 14. Segundo ele, a grande função social da arte é permitir ver o mesmo de uma forma diferente, é olhar o mundo por outro ângulo, e é isso o que procura fazer em seus poemas.

De um jovem poeta para uma jovem jornalista, confira a seguir a entrevista com Pedro Moreira.

Por Adriana Rodrigues

31/03/2015

     PEDRO PERFORMANDO UMA POESIA

Pedro Moreira lendo poema durante o II Sarau de poesia (Foto: Michel Gomes)

 

Jovens Jornalistas: Na abertura do sarau você disse que um dos seus poetas de referência é o Álvaro de Campos. Por quê?

Pedro Moreira: Ele é o poeta, ao menos em língua portuguesa, com o qual eu mais me identifico psicologicamente. Às vezes, num sentido formal, mas nem tanto, porque minha escrita é mais sintética, e o Álvaro de Campos escreve de forma, eu diria, menos contida, tem mais conteúdo linguístico, materialmente falando. Tenho também uma identificação no sentido temático, e no que se refere a uma dada dramaticidade, entre outras coisas.


JJ: No momento em que você se encontra, qual é seu estilo, seu jeito poeta de escrever?

Pedro Moreira: Eu estou experimentando um pouco, inconscientemente até. Não é algo da maneira como o dadaísmo fez ou o que as vanguardas fizeram, tipo “vamos sortear palavrinhas aqui e na ordem em que elas saírem, a gente então tem um poema”, embora eu tenha um poema assim, feito em conjunto. Mas eu não tenho essa consciência de “Ah, vamos experimentar para ver no que que dá”. Acaba acontecendo daquele modo, porque eu gosto de poesia de modo geral.

Eu leio Álvaro de Campos, mas eu leio também os concretistas, eu leio poesia regional goiana, como a Leodegária de Jesus, que tem quase toda a obra em sonetos, muito bem metrificados, parnasianos. Quer dizer, a minha leitura é bem diversa e isso acaba aparecendo na minha escrita, então eu ainda teria dificuldade de dizer qual é o meu estilo.

Mas, olhando para a minha própria escrita, tem aquilo com que eu me identifico mais e aí, nesse sentido, os poemas são mais metalinguísticos – a poesia que fala da poesia – que tem uma implicação formal e temática. Eu estudo português e linguística, então há um dado conhecimento de língua que vem no momento da inspiração, e aquele jogo de palavras, a polissemia, a ambiguidade, a autorreferência acabam aparecendo na poesia.

 

JJ: No conjunto, qual é a temática que você mais aborda em seus poemas?

Pedro Moreira: As paixões. Paixão não apenas no sentido amoroso e romântico, mas paixão como o contrário de equilíbrio, pois quem está em equilíbrio não é nem alegre e nem triste, se você está alegre ou triste você está apaixonado. Ou seja, paixão como tudo aquilo que é próprio do ser humano, os diversos sentimentos, no que significa a angústia ser uma paixão, assim como a alegria ou a tristeza. É paixão no sentido mais pleno, mais etimológico da palavra. Pessoalmente, eu sou mais psicológico que social, me interessa mais o indivíduo, a psique e a mente do que questões mais externas, sociais e políticas. Mas eu tenho alguns poemas que tem essa temática social e que têm me agradado bastante.

 

JJ: Porque fazer leitura “performática” de poesia?

Pedro Moreira: Acho que nós podemos concordar que há uma diferença entre uma simples leitura, que respeita vírgulas, pontos, uma leitura “branca”, e em se ler em voz alta, interpretando, e portanto, conferindo entonação, musicalidade, flexões, acentos, enfim, tudo que é próprio da linguagem oral, nesse sentido expressivo. A minha performance nesse caso é muito mais vocal que corporal. É como o canto, no sentido de que a língua tem uma musicalidade, mas é diferente do mesmo e da fala cotidiana, porque a leitura performática de poesia trabalha com verso, com rima, com metro, com ritmo. Não que a fala não tenha isso, mas é de outro tipo.


JJ: Como a interpretação vocal colabora na compreensão dos sentidos da poesia?

Pedro Moreira: A literatura se vale de recursos linguísticos que às vezes não são aqueles de que lançamos mão no dia a dia, na conversação. Muitos dos seus efeitos estéticos vem desse estranhamento, aquela palavra que você não esperava ouvir, seja porque é um estrangeirismo, um neologismo, um palavrão, uma gíria ou ainda uma construção sintática que você não esperava, enfim, sempre tem essa quebra de expectativa.

Quando eu interpreto, se a pessoa não conhece a palavra, ela entende ainda assim o que eu quis dizer pela forma alegre, sorridente, expansiva, gritada, mais forte ou mais arrastada com que eu disse a palavra, por exemplo. Na performance você faz com que a linguagem se torne motivada, com que a forma manifeste o conteúdo.


JJ: E isso, para que ocorra, parte de quem está interpretando o texto ou o texto já tem que ter características que propiciem a performance?

Pedro Moreira: Ambas as coisas, mais ou menos. No caso do poema de forma fixa, em que você tem um metro estabelecido, ou um tipo de rima ou uma temática, em que há uma proposta de antemão, o soneto, por exemplo, não tem como você passar por cima da rima. Se você não fizer a rima, vai ficar estranho. Mas sendo um poema de forma livre cabe mais interpretação, não que de outra forma não caiba, mas a forma livre é mais permissiva.

Contudo, o próprio tema do poema te diz como interpretar. Não tem como você ler um poema triste de maneira sorridente, a performance é uma interpretação assim como a que o ator faz. Então você tem que estudar o poema. Até a vestimenta tem que condizer com o que você está lendo, porque a pessoa não está só te ouvindo, ela está te vendo e tudo contribui para a construção do sentido, a menos que a proposta da performance seja subverter essa primeira associação entre o que se vê e o que se ouve, mas aí já é outra história.


JJ: Como você avalia o reconhecimento de poetas iniciantes quanto ao espaço para divulgação e ao público em Goiânia?

Pedro Moreira: Eu acho que a gente tem o problema da desarticulação, da não-coordenação de ações. Temos poetas muito bons, temos eventos cujas propostas são muitos boas, que ora conseguem se articular com instituições e com a mídia para trazer o público, ora não. Mas em Goiânia há uma cena literária, uma cena poética, sim.

Isso de sarau, de você sentar para contar e ouvir histórias, para ler poesias, para tocar músicas, é um tipo de evento que tem tudo a ver com a nossa cultura goiana, neocolonial, em que um dado conservadorismo, positivo, no caso, faz com que isso possa acontecer mais. Saraus ocorrem aqui na Faculdade de Letras, em outras faculdades, são promovidos por instituições como o Sesc, com atividades distribuídas por toda Goiânia, e há saraus até por parte da iniciativa privada, por assim dizer.

Mas às vezes os saraus são realizados sem interação com outros grupos, coletivos ou movimentos, não é tornado realmente um evento cultural, que possa ser consumido, e que logo exigiria todo um planejamento e divulgação, e por conseguinte, levaria a uma maior visibilidade.

 

              Varal de poemas na Letras

Varal de poemas no pátio da Faculdade de Letras (Foto: Michel Gomes)

 

  • Leia abaixo um dos poemas de Pedro Moreira

 

Angústia

eletroacusticamente entorpecido alucinado
desejo duma eterna balada
corporeidades exalando luxuriante perfume de fumo e álcool
e não há amor
                     – esse vazio inútil existencial
          matar-se só por uma noite
          noites a cada dia
          morrer todos os dias, lento e dolorosamente
mas, a música que não me estoura os tímpanos
a dança que não me contunde
as luzes que não me cegam
a droga que não me debilita
o sexo que não me enoja (o sexo que não há !)
a noite que existe/insiste/resiste
o dia que me anoitece e não me mata
para de novo, o novo, novamente, uma vez mais
e não é letal, eu aqui ainda , porque?
         matar-me só por essa noite
         noites a cada dia
         morrer todos os dias, (ó) lenta e dolorosa mente
e grito-inscrevo, na carne intocada
mas, a música que não me estoura os tímpanos ...
lágrimas de sangue que vertem por dentro, sempre
angústia solidão eu-mesmo
– sempre... e não (me) mata?!

Pedro Moreira [2014]

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