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Orgulho e Preconceito

Atualizado em 31/03/15 10:15.

Apesar de alguns avanços, travestis, transexuais e transgêneros ainda esbarram no preconceito e na intolerância

 

Por Júnior Bueno

 

Leat

A top model Lea T é um exemplo de mulher trans que ultrapassou a margem do preconceito

 

Foto: brasil.elpais.com

 

Bianca Lopes é funcionária pública e trabalha na hotelaria de um hospital de Goiânia. Ela está prestes a finalizar o processo de redesignação sexual dentro do Projeto Transexualismo, desenvolvido pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (UFG). No momento, ela é a quinta na fila de espera, que já dura alguns anos.

Feita a cirurgia, Bianca verá escrito na certidão de nascimento e nos outros documentos algo que ela sempre soube: ela é uma mulher. “Eu me via como menina desde criança, embora eu não pudesse me comportar como tal, por causa da família.” diz Bianca, “Não sabia lidar muito bem com esses sentimentos, porque, afinal de contas, era uma criança”.

O projeto, encabeçado pela professora da Faculdade de Medicina Mariluza Terra Silveira, existe desde 1999 e já operou 65 transexuais – masculinos e femininos – todos pela rede pública de saúde. O núcleo do HC é uma referencia no País e só existem outros três Estados que oferecem o serviço. “Para quem nasce com o sexo errado, é uma tragédia. Imagina ter que passar a vida toda em um desacordo entre o cérebro e o corpo físico,” diz Marilusa.

Para elas, algumas pessoas não compreendem bem a transexualidade. “Muita gente acha que é uma opção, mas não tem nada de opção: é uma condição que se nasce com ela. Só quem acompanha de perto pode ter o alcance dessa realidade,” diz a professora.

Quando se fala em visibilidade trans, estão incluídas as pautas de travestis, transexuais e pessoas transgênero. Em um País que lidera o número de mortes de travestis e transexuais, um projeto que ajuda a tirar pessoas da margem é mais que bem-vindo, ele é urgente. Entre janeiro de 2008 e abril de 2013, foram 486 mortes, quatro vezes mais que no México, segundo país com mais casos registrados.

Além dos casos de violência, há os casos de invisibilização que cidadãos e cidadãs trans sofrem. Beth Fernandes, presidente da Associação de Transexuais, Travestis e Trangêneros (Astral) e mulher trans declara: “Temos tudo e não temos nada”. Ela explica que, apesar de existirem cada vez mais conquistas, ainda há desafios a serem transpostos, como o da inserção de transexuais e travestis no mercado de trabalho.

Avanços

Outra questão relevante é a forma com que travestis e transexuais são retratados na mídia. Em casos de cobertura pelos jornais de travestis e transexuais assassinadas, os jornais fazem questão de identificar a vítima pelo nome masculino de registro, em vez do nome que ela adotava em vida. “É como se matassem ela de novo,” diz Beth.

 Apesar de tudo, a sociedade parece avançar (a passos lentos, é verdade) rumo a um cenário onde a transfobia seja tratada por todos como um assunto sério. O Projeto de Lei 5002/2013, a Lei João Nery que dispõe sobre o direito à identidade de gênero, encontra-se em trâmite e pode trazer avanços. A má notícia é que o projeto Transexualismo pode acabar.

Segundo Mariluza, ela e o cirurgião responsável pelas operações estão próximos de se aposentar, e ninguém se interessou em dar continuidade ao projeto. Além das dificuldades que o núcleo enfrenta, ainda há a incompreensão de setores da sociedade sobre o assunto. “Direto tem algum deputado falando alguma bobagem sobre as cirurgias serem do SUS,” diz ela. Ela lembra que o preconceito é um mal a ser combatido: “As pessoas precisam aceitar o diferente. Ver o ser humano, antes de tudo, independente do gênero ou da orientação sexual”.

 

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