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violência em goiânia

Alguma coisa está fora de ordem

Por que Goiânia está entre as 30 cidades mais violentas do mundo?

Por Fernanda Garcia

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Imagem: Macsix

Segundo relatório da fundação americana City Mayors, divulgado pelo site da revista Veja no início do ano, Goiânia é a 28ª mais violenta do mundo. De acordo com a pesquisa, a cada 100 mil habitantes na capital goianiense, obteve-se a taxa de 45 homicídios, um caso considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como epidemia de violência.

O panorama: crescimento da violência, cadeias superlotadas e um movimento de endurecimento das leis. O advogado e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Júlio Moreira, explicou que a defesa de leis mais punitivas faz parte de um processo de “fascistização em curso”. Ao citar o professor de Direito e Criminologia Penal da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Juarez Cirino dos Santos, o advogado alega que o Brasil é o país que mais pune no mundo. “A punição é intensa, basta ver a quantidade de pessoas encarceradas no Brasil. Quando se fala em impunidade, tem que se observar que a punição é seletiva”, declarou.

Por trás dos números, existe um problema estrutural que condena não somente Gôiania, mas grande parte das cidades brasileiras. Ainda de acordo com Moreira, associa-se erroneamente o crescimento demográfico com o aumento da violência. “O crescimento da violência conforme cresce a população está relacionado com um crescimento desordenado, um planejamento urbano excludente e concentrador na especulação imobiliária”, afirmou. Além disso, a maioria populacional é exposta a “situações de contradições sociais, pobreza e redes de crime organizado”, continuou.

O secretário de segurança pública do estado de Goiás, Joaquim Mesquita, contabilizou entre R$ 1 bilhão e R$ 1,3 bilhão investidos em segurança pública pelo governo do estado. Entre os destinos desse dinheiro estão os salários de policiais e outros funcionários, armamento, munições, locações de veículos e combustível. Existe ainda o Programa Goiás Cidadão Seguro, que já implantou 36 Áreas Integradas de Segurança Pública (AISP) com o intuito de padronizar as atividades das forças policiais. O secretário contou que em 22 locais onde existem AISPs já houve a redução do índice de homicídios dolosos, ou seja, quando há intenção de matar.

Em contrapartida, os cofres públicos chegam a gastar até sete vezes mais em um detento do que em um estudante de escola pública, de acordo com dados da Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejus). O advogado Júlio Moreira acredita que, no plano ideal, o cárcere deveria operar na reeducação e ressocialização da pessoa condenada, mas não é assim que acontece. “As cadeias no Brasil têm funcionado como uma espécie de ferramenta de vingança”, opinou Moreira.

Em entrevista ao jornal Brasil de Fato, a socióloga carioca Vera Malaguti fez uma observação que pode servir como o ponto de partida para solucionar o quadro de violência que assola não só Goiânia, mas o Brasil. “A questão é o que quer dizer segurança pública para nós. Para mim, é transporte coletivo não monopolizado, de boa qualidade, escola pública de boa qualidade. Segurança é decorrência de um conjunto de políticas públicas. Numa cidade que precisa de tanta polícia, exército, marinha, aeronáutica, alguma coisa está fora de ordem, como diz o Caetano Veloso”.

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