Weby shortcut
4884

A arte sob as asas da Boa Preguiça

O produto artístico cresce à sombra do ócio criativo, necessário ao descanso da mente

 

Por Nicole Reis

Não faltam preguiçosos na literatura brasileira. Como companhia ao lento Jeca Tatu, de Lobato, está aquele que diz: "Ô mulher, traz meu lençol, que eu estou no banco deitado! É esse o brado constante do poeta nordestino Joaquim Simão, protagonista da peça Farsa da Boa Preguiça, escrita por Ariano Suassuna. Jeca Tatu tem a desculpa de estar doente, mas esse não parece ser o caso de Joaquim.

Há quem diga que esse produtor de versos de cordel não quer saber de uma rotina de trabalho séria. Deita-se na rede, pensando em suas poesias, e a mulher que lhe traga o lençol para o cochilo do dia. Mas para outros, o ócio de Joaquim não passa de um duro processo de criação. Seria sagrada a preguiça do artista?

A estréia da peça, na Recife de 1961, suscitou críticas diversas a Suassuna, acusado de estar incitando o brasileiro à postura preguiçosa perante a labuta diária. Suassuna diz não gostar de dar explicações aos poderosos mas esclarece que sua obra não é uma apologia indiscriminada à preguiça, mas um elogio ao ócio que permite a produção artística. "Há uma Preguiça com asas, outras com chifres e rabo. Há uma preguiça de Deus e outra preguiça do Diabo, diz uma das personagens da Farsa. A primeira, produtiva e necessária. A segunda, nada cria.

Assim como o escritor, a psicóloga Mônica Quinan faz a distinção entre a má preguiça e o descanso ou ócio. "Desconexão laboral", é esse o modo como Mônica chama a famosa Boa Preguiça, o processo de repouso necessário à manutenção de uma qualidade de vida adequada.

"O ócio criativo é absolutamente salutar, tanto física, como mentalmente. Desempenha um papel libertador, uma vez que o tempo livre é necessário para a produção de ideias, que são a matéria dos sonhos, e são os sonhos que dão sentido e alegria à labuta diária", ressaltou a psicoterapeuta.

A psicóloga cita o célebre dissidente da corrente freudiana, Carl Jung, autor da frase “Quem olha pra fora sonha, e quem olha pra dentro acorda”. Sendo matéria prima para os sonhos, a Boa Preguiça que Joaquim Simão cultiva em sua rede de dormir não poderia deixar de ser louvada pelos amantes da arte. Fechar os olhos para o mundo exterior, não é estar alheio à vida. Tantas vezes, é estar ainda mais afinado com ela, conhecendo-se as estradas de dentro.

Grupo Guará

Ao longo de 20 anos de existência, o grupo de teatro Guará, pertencente à Pontifícia Universidade Católica de Goiás, PUC-GO, deu vida às personagens de Suassuna, verdadeiras xilogravuras vivas. Recentemente, o grupo empenhou-se em uma adaptação teatral da Farsa da Boa Preguiça. A riqueza das produções do autor nordestino permitem, segundo Baldani, o trabalho intensivo com as habilidades de cada ator.

Referindo-se ao conteúdo de sua última peça, enfatizou o diretor: "A Preguiça Boa é aquela que você merece depois do trabalho. Eu valorizo muito o trabalho. É como os incas falam: não mentir, não ser preguiçoso e trabalhar". A preguiça de Deus é o famigerado descanso após a labuta cotidiana.

Apesar de valorizar o trabalho como atividade que dignifica, Samuel é fã incondicional do ócio criativo e diz que o cultivo do descanso depende de disciplina, do estabelecimento de horários destinados à "recarga de baterias", para que a mente funcione bem. Segundo o diretor de teatro, os momentos de lazer e descontração são indispensáveis ao processo de produção artística.

O coordenador do Guará é enfático quanto à rotina produtiva daquele que faz arte: "O trabalho do artista é um ato criador, uma labuta criadora. Ele não está a toa. Está trabalhando, sofrendo, estressado. Às vezes fico o tempo todo pensando na peça e tenho que me exercitar pra conseguir parar de pensar em como vou resolver uma cena". Baldani adora andar e tomar banho de cachoeira, a fim de "recarregar as energias" e voltar disposto ao trabalho.

Xilogravuras vivas no palco

O Grupo de Teatro Guará, ligado à Coordenação de Arte e Cultura da PUC Goiás, tem 20 anos de existência e muita experiência na interpretação de obras do escritor Ariano Suassuna. Amante do teatro medieval e comédia dell'arte, Samuel Baldani, diretor do Guará, diz-se encantado pela literatura de cordel e pelas obras do aclamado autor nordestino. A peça mais recente do grupo é uma adaptação de Farsa da Boa Preguiça, de Ariano. "A Farsa tem uma característica corporal muito forte, é um estilo de teatro que permite você trabalhar com as habilidades do ator ", disse Baldani.

A paixão de Samuel Baldani pelo trabalho de Suassuna teve início ainda quando começou a organizar pequenas peças no meio acadêmico. "Eu venho do teatro universitário. Não queria associar dinheiro com a realização do trabalho artístico. Mas acabou que aconteceu, não com um ato racional, mas como um processo espontâneo".

Ele realçou a dificuldade encontrada na interpretação de peças do gênero Farsa, e falou sobre o conteúdo de seu último espetáculo: "A peça é moralista, traz elementos do catolicismo, uma visão bem popular. O mau vai pro inferno. Mas eu não fico encucado com a questão moralista, o foco é a qualidade artística".

Segundo o diretor de teatro, uma boa peça apenas é possível a partir de um trabalho colaborativo. A influência de todos os atores deve estar presente no resultado final, e é por isso que Baldani incentiva as contribuições de todos os membros no processo de montagem das peças, e adota um estilo de direção que valoriza a liberdade criativa e a opinião do ator. Ele ressalta que o Guará é um grupo-escola, empenhado na formação do artista e aberto a todos os que quiserem participar. O coletivo recebe estudantes de diversas áreas e cursos. 

Listar Todas Voltar