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Educação para o fim do preconceito

Por Nicole Reis

O desenvolvimento dos estudos feministas culminou na disseminação do conceito de "gender" (gênero), categoria empregada na análise das relações entre homens e mulheres, e no entendimento dos indivíduos que não se consideram enquadrados em alguns dos lados desta díade.

As reivindicações e conquistas do movimento LGBT (composto por lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transsexuais), inseridas nas lutas pela consolidação dos direitos democráticos, vem ganhando um espaço cada vez mais expressivo nos meios de comunicação.O movimento tem tido sua sigla frequentemente modificada a partir do acréscimo de outras letras, que representam novos grupos.

No mês passado, o Conselho Regional de Psicologia (CRP) do Paraná efetuou a cassação do registro de Marisa Lobo, acusada de empenhar-se em sessões terapêuticas destinadas à "Cura Gay", isto é, tratamentos destinados a reverter a orientação sexual dos pacientes homoafetivos, em prol da heterossexualidade. A situação divide a opinião pública e incentiva toda a sociedade a uma reflexão acerca das questões de gênero.

Como consequência dos movimentos sociais libertários que marcaram a década de 1960, os estudos de gênero concederam impulso não somente às lutas feministas, mas também ao questionamento geral das "práticas sexuais"; dentro deste último, nasceu a exposição das reivindicações dos grupos gays.

No Brasil, as pesquisas acadêmicas que tiveram início nos anos 70 e 80 e a conscientização coletiva resultaram, como em outras partes do mundo, na luta pela desnaturalização do padrão heteronormativo e pela consequente legalização das uniões estáveis homoafetivas. Entre as conquistas já obtidas pelo movimento LGBT, estão a autorização do casamento civil gay e a apresentação, pela Secretaria de Direitos Humanos, da proposta que classifica como crime de ódio aqueles motivados pelo preconceito contra homossexuais.

Relativização

O conceito de sexo e gênero encontram-se tão fortemente associados que se torna comum o emprego dos dois termos como sinônimos. Desta forma, ignora-se a construção social do indivíduo, que passa ser visto, sob a perspectiva do determinismo biológico, como produto de heranças genéticas.

Sob a égide do biologicismo, o sexo "mulher deve estar vinculado ao gênero "feminino", ao passo que os "homens" devem portar-se conforme o que se é esperado do gênero "masculino"; quaisquer fugas a este paradigma representariam anormalidades, desvios passíveis de correção. Portanto, a classificação da homossexualidade como doença tem como origem a desconsideração da proeminência do contexto sócio-cultural-político na constituição do pensamento e práticas individuais, incluindo-se as relações afetivo-amorosas.

A aceitação geral das formas de vivência da sexualidade alheias ao padrão heteronormativo só se faz possível pela relativização da biologia na formação da afetividade. Faz-se necessário um entendimento completo do indivíduo, capaz de considerar todas as facetas que o constituem.

Somente a partir de uma educação que conceda maior espaço a pesquisas culturais e psicológicas, incentivando-se a valorização da diversidade de gênero, faz-se possível uma ampla conscientização da sociedade e a consequente amenização das práticas preconceituosas direcionadas aos grupos LGBT's e suas novas categorias. Apenas uma educação nos moldes apresentados é capaz de estimular o repúdio sincero às discriminações de gênero, que constituem afrontas diretas à vivência plena da democracia.

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