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O dia que o ônibus parou

A curta trajetória de uma usuária do transporte coletivo de Goiânia 

Por Kamila Monteiro 

Acordo cedo, vou ao banheiro e me arrumo para ir à faculdade. Tomo o café da manhã rápido, bem rápido porque daqui a pouco tenho que correr. A televisão está ligada com as principais notícias locais, nacionais e mundiais no jornal. Se eu assistir ao resto da reportagem, com certeza vou chegar atrasada na faculdade. Desligo a TV e corro para o ponto. O barulho do motor se aproxima, mas o local de parada ainda está longe. Não vai dar tempo não vai dar tempo... não deu tempo. O ônibus passou e eu sofri calada. É, meu dia vai se atrasar.

Manhã seguinte acordo cedo, vou ao banheiro e me arrumo para ir à faculdade. Tomo um café quente rápido. A televisão está ligada com as principais notícias locais, nacionais e mundiais no jornal. “Submarino não tripulado da Marinha dos EUA é acionado no oceano Índico para participar das buscas ao voo MH370 d...” Não dá tempo de assistir. Interessante que depois que entrei para faculdade de jornalismo, quase não tenho mais tempo para assistir jornal. Engraçado, mas depois penso nisso. Corro para o ponto, lá vem o ônibus. Graças a Deus hoje deu tempo. Vou pra aula. Assisto, escrevo, comento e compartilho, ops... isso aqui não é Facebook Kamila.

Hora do almoço. Descanso pra mente, porém não há tempo a perder. Daqui a pouco é hora de ir pro ponto pegar um dos ônibus mais cheios que passam no Campus II. Muitos o conhecem como lata de sardinha, outros como coração de mãe (porque sempre cabe mais um), mas seu verdadeiro nome é 263. Todos que já tiveram o desprazer de andar nesse ônibus sabem como é difícil. Cheio, fendendo e, para completar a história ainda é necessário suportar os “abusadores” de ônibus, também conhecidos como molestadores.

Finalmente o ônibus chega ao terminal da Praça da Bíblia. Agora é hora de encarar mais um ônibus cheio. Outra luta. E tempo de entrar no 020. Entro, me empurram, me encoxam, mas vou seguindo. Em nenhum momento consigo sentar. As questões que envolvem o transporte público estão sendo discutidas recentemente com mais frequência. “O valor da passagem vai aumentar”. “O número de ônibus será reduzido em toda a região Metropolitana de Goiânia”. A situação não pode continuar do jeito que está.

As pessoas precisam se mobilizar, se movimentar. Manifestações precisam acontecer. Todavia quando os protestos são programados, sempre aparecem aqueles que querem fazer bagunça, chegando ao ponto de machucar usuários de dentro e fora do ônibus com paus e pedras. Bom, talvez na próxima a situação não chegue a isso.

Seis horas da tarde. Hora de sair do estágio, voltar pra casa. O terminal Isidoria está como sempre: Lotado. Pego o 020 rumo ao terminal da Bíblia. Não consigo sentar.  Nenhuma surpresa ao chegar no outro terminal, também está lotado. O ponto do 263 não está cheio, está transbordando de gente. Lá vem o primeiro ônibus. Todo mundo se aperta, alguns querem voltar pra casa, outros querem ir pra faculdade. O ônibus lotou rápido, não consigo entrar. Quinze pras sete da noite, lá vem outro ônibus. 264 Praça da Bíblia – Santa Genoveva. Pouco mais de 15 pessoas entram no coletivo. Sete horas. Lá vem mais um. Santa Genoveva novamente, 10 pessoas entram. Sinceramente eu não entendo a distribuição dos ônibus. Não seria melhor disponibilizar um número maior de ônibus para o trajeto com mais pessoas? Não entendo. Olha só, o ponto já está cheio de novo. Sete e meia da noite. 236 Praça da Bíblia – PC Campus. Agora vai. Agora eu consigo. Entro, mas não sento. Me empurram ,me encoxam e vou seguindo.

Quando o ônibus finalmente chega próximo ao conjunto Itatiaia, ele para. O motorista se levanta do banco e manda todo mundo descer. Os passageiros estão atordoados, ninguém entende nada. O que está acontecendo? Por volta do meio dia de hoje alguns alunos da UFG depredaram um ônibus próximo ao Campus II. Um outro ônibus foi incendiado. Diante do ocorrido, a direção da RMTC comunicou que todas as linhas que seguem rumo ao Campus Samambaia deveriam retornar ao terminal ou seguir apenas até as imediações da UFG. O que posso fazer? Nada, a não ser caminhar.

Usuários cansados, fadigados e suados começam a caminhar reclamando e xingando todos e as mães de todos. Ao me aproximar do bar conhecido como Pamonharia, que não vende pamonha, percebo algo que me deixa nervosa. Muitas pessoas que, acredito eu estavam na manifestação de cedo, estão agora lá na Pamonharia bebendo, rindo, se divertindo e principalmente voltando para suas casas de carro. Não estou aqui condenando quem vai pro bar e tem carro. A minha indignação é voltada para aquelas pessoas que aproveitam situações, como os protestos, para fazer bagunça e destruir patrimônio público. Não digo que são todos, mas com certeza muitos. Mas, fazer o quê né? Não tem ônibus mesmo. Vou continuar minha caminhada.

Nove e quinze da noite. Finalmente em casa. Tomo banho. Como alguma coisa. Antes de dormir, resolvo dar uma olhada nos jornais. “Ônibus incendiado”., “Linhas do transporte público com direção ao Campus II estão retornando ao terminal”. E uma última notícia: há possibilidade de ocorrer outra manifestação amanhã.

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