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O cenário musical independente do Século XXI

A música precisa ser um produto, ela precisa ser paga. De uma forma geral as pessoas não consomem, não a valorizam”.

Por Matheus Ferreira

Na última década, o mercado musical passou por uma mudança drástica. Com a popularização da internet, a forma de se consumir música foi mudado. O modo de se produzir também passou pelo processo de transformação. E com isso, as gravadoras e os selos tiveram que alterar seus papéis dentro dessa lógica. Léo Bigode, um dos donos da Monstro Discos, um dos mais importantes selos e produtora de rock do estado, nos conta sobre o novo mercado e as mudanças encontradas atualmente não.

 

Jovens Jornalistas- Diferente de anos anteriores, a gravação de um CD se tornou muito mais acessível para as bandas. Com isso, qual o papel das gravadoras/selos atualmente no processo de gravação/lançamento de um álbum?

Léo Bigode - Esse processo de gravação "caseira" já é comum faz alguns anos mas agora de fato as coisas estão bem mais fáceis e isso é muito bom. O papel de um selo é , como no caso da Monstro, chancelar o álbum, lançar, distribuir, contribuir pra difusão. Isso pode parecer distante mas é super importante, no sentido de somar forças. Isso não significa que uma banda não pode fazer todo o seu trabalho de forma independente, sem selo atrelado, mas na minha visão pode ser um articulador importante.

JJ - Observando-se que a música em formato digital está cada vez mais predominante, ainda existe espaço para a mídia física ou se tornou apenas objeto para colecionadores?

LB - Ainda existe um espaço. Pequeno mas existe. As bandas ainda vendem CDs, especificamente em shows onde há uma impulsividade do público, querer autográfos , essas coisas. O CD de certa forma chegou a um nivel bem baixo de giro comercial mas ainda é muito importante como ferramenta de divulgação.

JJ – Com o mercado existente hoje, é possível se obter lucro com a venda de CDs? Ou pelo menos é suficiente para se pagar o próprio custo de produção?

LB - Isso depende das vendas. na maioria das vezes não. Agora se a banda vende bem, mais de 500 CDs já se paga, mas isso depende do custo de um produçao do disco - desde a gravação ate a prensagem. Na maior parte das vezes nãoo se paga. Mas isso já é assim há um tempo.

JJ - Cada vez mais as bandas estão disponibilizando suas músicas na internet gratuitamente, liberando para audição e download das mesmas. Com isso, ainda é possível observar a música como um produto ou essa visão é coisa do passado? De que forma pode-se utilizar esse novo cenário para se obter receita?

LB - Isso é uma constante mas é um erro recorrente. A música precisa ser um produto, ela precisa ser paga. De uma forma geral as pessoas não consomem, não a valorizam, mas por trás de uma música gravada existem várias partes de um negocio que é remunerado, o estudio de gravação é pago, a foto que se fez , a capa do disco. E mesmo que seja em um home-estúdio, quando se compra o equipamento se gasta dinheiro. Não vejo nada mais natural que a música ser paga para que a banda seja remunerada. Por outro lado, disponibilizar as músicas para audição pode ser, e é, um bom artifício de divulgação da banda. Acho que deve existir um meio termo em se divulgar e se vender a música, seja ela em que formato for. E o público consumidor precisa valorizar isso. Quando o público entender que comprando uma música ele esta fazendo o negócio musical girar, as coisas certamente mudarão pra quem trabalha no ramo.

JJ - Percebe-se que ao longo dos anos houve um grande crescimento em toda a estrutura de shows, com equipamentos de som e iluminação melhores, lugares maiores. Até que ponto isso mudou a forma de se organizar shows? Houve uma alteração considerável nos custos? E como isso se refletiu ao público?

LB - Mudou muito a forma na medida que deu mais condições profissionais pra quem está envolvido. Quanto mais se melhora qualidade mais se aumenta o custo, isso faz com que o publico também cresça para no final se fechar a conta.

JJ – As bandas acompanharam o crescimento e profissionalização dos eventos?

LB - Sim, a grande maioria. Mas ainda existem bandas em Goiânia com a mentalidade de 20 anos atrás, sem se preocupar com qualidade, com equipamento, com um conjunto de coisas que fazem um rockstar. Uma banda pode ser da periferia, de uma cidade pequena, mas quando sobe no palco o cara tem que ser um rockstar. Tem gente que nao sabe o que é isso.

JJ - Goiânia possui lugares suficiente para a realização de shows? Até que ponto o período em que o Centro Cultural Martim Cererê esteve desativado prejudicou a realização de eventos na cidade?

LB - Sim , eu diria que hoje Goiânia está bem servida de casas de shows e pubs, estamos bem melhores que Brasília, por exemplo. O Martim Cererê fez uma falta tremenda porque, muito mais que um centro cultural, ele funciona na cidade como um centro de cultura pop, estética , movimento de gangues de rua, estilos, tendências, uma casa de movimentos alternativos. Isso meio que se perdeu nos pubs e casas. O Martim é um lugar que aglutina tudo em um só lugar. Com o seu fechamento e a abertura das casas e pubs, tudo se modificou, acredito eu.

JJ – Você acredita que um show do porte do Paul Mccartney foi algo único ou teremos outros desse tamanho em Goiânia? Por que as produtoras não se arriscam a fazerem shows de rock para grandes públicos aqui na capital?

LB - Acredito que sim, poderemos ter mais shows desse porte em Goiânia. Isso depende de políticos e de grandes empresários, coisas que não estão ao meu alcance, não faço a mínima ideia. Eu só acharia o máximo se o governo de Goias trouxesse o Slayer pra tocar no Serra Dourada. Aí sim eu botaria fé no Marconi (risos).

JJ – Com o dinheiro provindo dos shows, é possível sustentar uma banda, com todos os gastos necessários para isso?

LB - Dentro do circuito que a Monstro atua, eu diria que não.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte : FIC

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