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“Oásis” militares e seus sujeitos obedientes

Diane Valdez, professora de História da Educação na Universidade Federal de Goiás e militante da área de infância e adolescência, posiciona-se contrariamente à atribuição de funções educativas à Secretaria de Segurança Pública.

Por Nicole Reis

 

Jovens Jornalistas: No início deste ano, o governo de Goiás entregou a administração de dez escolas públicas à Secretaria de Segurança Pública. A Faculdade de Educação considera esta medida válida como forma de combate à violência?

Nós aqui da Faculdade de Educação somos responsáveis por formar professores pras escolas públicas, nossa prioridade é essa. E nós temos uma grande preocupação com este debate a respeito da violência. Temos estudos sobre isso, pesquisas, grupos de estudo, e não temos respostas prontas pra isso, mas o que nós temos muito certo é que não é militarizando a escola pública, que vai acabar a violência. A escola faz parte da sociedade. Se a sociedade é racista, a escola vai ser racista, se a sociedade é violenta a escola vai ser violenta.

A escola não é um arredoma. Nós não podemos pensar em criar oásis, criar ilhas particulares entregando as escolas pra Secretaria de Segurança Pública. Quando a Secretaria de Educação transfere seu papel pra outra secretaria que é absolutamente diferente, há uma inversão, um equívoco muito grande. Na história da educação toda, nós lutamos para ter uma escola democrática, onde o aluno participe de fato, que ele sinta que a escola é dele, que ele opine, critique. Com a proposta das escolas militarizadas, isso tudo tem um retrocesso enorme, porque tem gente que manda, e tem gente que obedece. A uniformização é geral, desde a roupa e o cabelo. Tenta-se padronizar e uniformizar o pensamento, e isso não é possível, a gente sabe. Fizemos um documento que está na página da faculdade de educação, que chama "nota em favor da escola pública". Nós entendemos que a escola pública não deve ser gerida pela Polícia Militar.  

 

JJ: E quando o estudante entra na escola militar, precisa arcar com uniforme, livros e mensalidade...

Nós já pagamos por uma escola que cobra do estudante, já pagamos impostos pra ter uma escola pública. Ela não é nem gratuita, pois pagamos por ela e muito caro. Quando o trabalhador coloca o filho numa escola militar, ele tem que pagar matrícula, pagar mensalidade, uniforme e livro, então não é uma escola pública. Por que comprar outro livro que não é aquele que passa pelo Plano Nacional do Livro Didático (PNLD)? No PNLD esses livros são avaliados por nossos pares para que se saiba quais estão adequados ao que nós pensamos sobre a educação hoje: cidadania, direito, opinião. Quando estes livros são aprovados, eles vêm gratuitamente para a escola. De onde vem esses livros que são comprados fora disso? Os alunos pagam duas vezes; pagam impostos e pagam mensalidade, uniforme. É sem sentido. Por que algumas escolas do Estado vão ter este padrão e as outras estão à míngua? Os professores sem a menor condição de dar aula, o piso sendo pago depois de muita luta, de muito protesto.

 

JJ: Muitos consideram a educação dos colégios militares como espartana, a chamada "agoge". Quais são os malefícios para o aprendizado deste tipo de estrutura curricular tão rígida e da necessidade de respeito à hierarquia?

A democracia é um apanhado de práticas que fazem com que a escola seja de todos. Na escola, o ideal é que não se estabeleça uma hierarquia de quartel, militar. Porque isso é totalmente diferente de uma proposta de educação inovadora, crítica, democrática. Quando se exige que os alunos pensem todos iguais, quando são colocados todos na fila e proibidos de serem críticos, que sujeitos vão ser formados? Sujeitos dóceis talvez, sujeitos revoltados. A princípio, a intenção dos colégios militares é formar sujeitos dóceis, que sejam obedientes, bons empregados, que não retruquem, não critiquem, que sempre obedeçam. É muito complicado a gente ter uma sociedade de sujeitos obedientes. Faz parte da adolescência a contestação, o diferente, a rebeldia. É o momento que os meninos querem se sentir diferentes mas iguais ao mesmo tempo. Têm uma insegurança. É um momento em que o aluno precisa de apoio até para saber o que vai fazer depois. O problema não é a rigidez, o problema é ter uma estrutura de quartel.

JJ: Os colégios militares figuram na lista dos melhores colocados no ENEM, que é uma avaliação mais conteudística. O governo pretende militarizar as escolas porque há dados de que as escolas militares formam alunos com melhores notas no Enem, mas ao mesmo tempo, esta prova não é um sistema de avaliação de outros aspectos, como formação de cidadania. Qual seria o modelo ideal de escola, uma estrutura mais adequada à formação de cidadãos completos, competentes em diversas áreas, não só em conteúdo?

Uma das questões que eu mais defendo nessa relação educação, escola, formação é a própria humanização. Nós professores temos esse papel de ajudar a construir uma sociedade mais humana, mais justa. Isso não está atribuído só a nós da escola, cabe a todo mundo. Mas a escola é o lugar onde as diferenças aparecem. A gente tem a oportunidade de trabalhar com os estudantes exatamente isso: a questão da humanização, o aceitar o outro, ser mais tolerante, respeitar a questão religiosa, a questão homoafetiva, todas as outras questões que são comuns nesse meio. Quando  pensamos só em ranking, em posição, outras coisas são deixadas de lado. O conteúdo é importante, eu não tenho nenhuma dúvida disso, é um direito que todos têm de aprender e aprender bem. Na escola militar é feito todo um trabalho com os alunos em relação à universidade, algo que a gente sente falta nas outras escolas. Essa questão de trabalhar a capacidade do aluno para entrar na universidade pública... a organização militar tem um objetivo.

JJ: Este é um ponto que deveria ser transposto para as outras escolas?

Sim, para todas. Quando tem o Espaço das Profissões. A gente percebeu isso várias vezes, que poucas escolas públicas levavam os alunos, enquanto as escolas particulares lotam aquele espaço, levando os alunos nos melhores ônibus, porque sabem que se os alunos entrarem naquela universidade pública, a escola ou cursinho vai ter mais alunos.

JJ: E essa decisão foi tomada em parceria com a Secretaria de Estado da Educação?

A Secretaria de Educação que procura a Polícia para isso. Mas com a crise que a Secretaria de Segurança Pública está passando agora, ela tem que se sustentar em alguma outra base da sociedade. A criação das escolas militares agrada a população. Os professores se sentem da elite dando aula nestas escolas mesmo que estejam submetidos ao coronel ou outro superior militar.

 

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