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Manifestante com cartaz

A culpa ainda é delas

Abuso sexual no Egito toma grandes proporções e projeto de lei que busca criminalizar a prática encontra barreiras por causa de culpabilização da vítima por parte das autoridades

Por Carmem Curti

 

manifestante

Manifestante com cartaz que diz, em tradução livre "Mesmo mulheres vestidas desse jeito são estupradas. Qual sua desculpa agora?" Fonte: Instagram

 

Muito se fala sobre a revolução no Egito, que vem acontecendo nos últimos anos, e como o povo foi às ruas para conquistar o que queriam. Derrubaram um ditador, conseguiram eleições, derrubaram o eleito por não cumprir o que foi prometido. As multidões se fizeram ouvir, mas parte delas ainda sofre com outro tipo de opressão.

As mulheres, que tinham praticamente os mesmos direitos dos homens, viram um retrocesso nos mesmos e hoje sofrem com abusos e estupros sistemáticos. A violência sexual no país já é considerada endêmica, e um projeto de lei apresentado na última quarta-feira, 7 de maio, poderia ajudar a reverter um pouco a situação, não fosse o discurso de culpabilização  da vítima ainda presente na sociedade egípcia – e gerado, em grande parte, pela parcela islamita, segundo estudo da ONU.

O projeto de lei criminaliza todas as formas de violência sexual, com foco na violência motivada pelo gênero das vítimas, que em sua maioria esmagadora são mulheres. Na praça Tahrir, centro nervoso da revolução,  é também o centro nervoso da vioência – é o lugar onde mais estupros acontecem  no Cairo. Segundo as provisões feitas pela Convenção das Nações Unidas (ONU) para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as Mulheres (CEDAW), onde 19 países árabes assinaram, o Egito é o pior país para as mulheres no que diz respeito a violência sexual.

Sem muita diferença

O que acontece no Egito não difere muito do que acontece aqui, no Brasil. “Lá é tenso, mas eu me sentia mais segura lá que aqui” diz Jordana Oliveira, estudante brasileira que viajou ao Egito para trabalhar em uma ONG. “Acho que porque achava o assédio sexual dos caras mais tranquilo no sentido de serem menos agressivos”, explica.

 

egypt women

Mulheres na Praça Tahrir em manifestação contra o assédio sexual. Fonte: Google Images

 

Para a estudante angolana Eufrásia Songa, em países como o Egito é mais fácil as vítimas serem condenadas do que os violentadores. “Lá eles prezam muito pela ‘decência’ das mulheres e as consideram culpadas de violência sexual porque, para eles, são elas que a incitam”, disse. De novembro de 2012 à março de 2014, 240 estupros aconteceram e nenhum dos criminosos foi julgado, segundo a Federação Internacional para os Direitos Humanos, devido à falta de credibilidade das vítimas.

Mesmo com os dados da ONU, Jordana acha que o quadro de violência no Egito já está mudando e que as mulheres não se submeteram por muito mais tempo. “Com a situação política instável essas coisas começaram a ser mais denunciadas, e tornaram-se mais visíveis pra eles lá e para o mundo”, conta. Isso se evidencia na maior importância dada à entidades voltadas para as mulheres, como o Conselho Nacional de Mulheres do Egito. “Quando fui tinha visto pouca coisa sobre isso e desde que voltei tem tido muita campanha, debate e mudança de consciência lá. Muito triste um país tão maravilhoso ainda sofrer com esse tipo de problema”, reclama Jordana, mas na torcida pela mudança.

Fonte : FIC

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