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Relacionamentos Binacionais

"Não temos muitos problemas com relação a diferença de nacionalidade porque temos um ponto em comum: somos cidadãos do mundo."

Por: Eufrásia Songa

Psicólogos afirmam que o relacionamento entre as pessoas começa pela atração física e passa pela questão da afinidade apreendida durante a história de vida e termina, ou não, dependendo da qualidade da comunicação e do diálogo. Este passo a passo funciona, tanto para pessoas da mesma nacionalidade, como para pessoas de países diferentes, embora estes últimos passem por um processo de adaptação maior. Em entrevista, a economista brasileira Maria Izabel Santos Bell, que vive atualmente em Bruxelas - Bélgica com o esposo Marc Bell, de nacionalidade francesa, conta a sua história.

 

JJ: Afirma-se que ambientes multiculturais facilitam esse tipo de relacionamento. Qual foi o vosso caso?

Nos conhecemos em outubro de 2009 em Barcelona - Espanha. Eu estava fazendo um intercâmbio acadêmico, na Faculdade de Economia e Administração da Universitat de Barcelona, e ele também. O ambiente da faculdade era muito internacional, tinha gente do mundo inteiro, mas a grande maioria era de nacionalidade europeia. Apesar do grande número de estrangeiros não havia muita diversidade racial na nossa faculdade, e eu como estudante estrangeira e negra, sentia falta disso, de certa forma me sentia um "peixe fora d'água". Nosso primeiro encontro ocorreu em um dos corredores da faculdade. Ele chamou minha atenção justamente pelo fato de ser negro. Não haviam muitos negros naquela faculdade. Quando nos vimos nossos olhares se cruzaram. Depois me dei conta que tínhamos uma disciplina em comum. Um dia no final da aula quando saí ele estava na porta, então nos apresentamos e foi ali que tudo começou. Nos tornamos amigos. E não demorou muito para descobrirmos que tínhamos muito mais coisas em comum além da cor da pele.

JJ: Quando foi que as coisas se tornaram sérias entre vocês?
Essa é uma pergunta difícil de responder. As coisas foram acontecendo muito naturalmente. Não havia cobrança de nenhuma das partes. Mas acho que as coisas se tornaram sérias quando ele me convidou para passar as festas de fim de ano com a família dele.

JJ: Como tem sido estar casada com um pessoa de outra nacionalidade?
Estou muito feliz com o meu casamento. Não consigo pensar se poderia ter ocorrido de outra forma... Acredito que os problemas que nós enfrentamos são, em maior ou menor medida, iguais aos problemas que um casal de mesma nacionalidade enfrenta. Porque para nós a diferença de nacionalidade nunca foi um empecilho, senão o contrário. O legal de estar casada com uma pessoa de outra nacionalidade é o ganho cultural que isso acarreta. Aprendo muito com ele e vice-versa. Além de termos aprendido a falar o idioma um do outro, tivemos a oportunidade de conhecer a cultura e costumes do país um do outro. Nos casamos só em junho de 2013. A nível de relacionamento poucas coisas mudaram entre o antes e o depois do casamento. Já estávamos vivendo juntos há 2 anos antes de nos casarmos. Temos problemas como qualquer outro casal. É preciso fazer concessões, ter paciência e compreensão com o outro. A vida a dois será sempre mais complexa que a vida de solteiro, uma vez que para tudo é preciso pensar no que é melhor para os dois. A nível de comunicação, nunca tivemos grandes problemas. À princípio nos comunicávamos em espanhol, depois quando ele foi morar no Brasil, então adotamos o português como língua oficial do nosso casamento, e agora priorizamos a comunicação em francês.

JJ: O relacionamento binacional é trabalhoso? Que situações vocês estão sujeitos a enfrentar?
Sim e não... como disse anteriormente acredito que os problemas sejam mais ou menos os mesmos de um casal comum. No nosso caso específico não temos muitos problemas com relação a diferença de nacionalidade porque temos um ponto em comum: somos cidadãos do mundo. Nenhum de nós impôs ao outro que se instalasse em seu país, ou seja, não o obriguei a ficar no Brasil porque sou brasileira e tenho minha família lá. Ele tampouco me obrigou a viver na França porque sua família vive lá. Tanto ele quanto eu nos adaptamos facilmente a novas culturas. Antes de me conhecer ele já havia vivido em 3 países: França, Inglaterra e Espanha. E eu sempre gostei de conhecer novas culturas, sempre quis viver em outros países. Agora por exemplo, estamos vivendo em Bruxelas. Aqui não temos família. Viemos porque ele conseguiu um trabalho aqui. E assim é a nossa vida, estamos onde estão as oportunidades.

JJ: Qual a diferença entre o relacionamento de pessoas da mesma nacionalidade e de pessoas com nacionalidades diferentes?
Um relacionamento entre pessoas da mesma nacionalidade tem a vantagem de ambos falarem a mesma língua, normalmente compartilharem a mesma cultura, os mesmos costumes, etc. Já em um relacionamento entre pessoas de nacionalidade diferentes os problemas vão depender do quão sintonizados estão as duas pessoas. Ou seja, vai depender se eles conseguem se comunicar bem em algum idioma, do grau de diferença cultural e (talvez) religiosa entre os dois, etc. O Brasil é um país de cultura ocidental e de maioria católica, não há como negar. Nesse ponto não nos diferimos muito da França. O português e o francês são idiomas que derivam do latim. Então para nós que gostamos de aprender novos idiomas não foi tão difícil aprender a língua do outro para melhor se comunicar. Outra coisa que pode afetar bastante é a personalidade. Pessoas mais reservadas, que não gostam de se aventurar terão muita dificuldade em manter um relacionamento com uma pessoa que vê o mundo de outra maneira. A nível pessoal, eu sempre fui muito independente. Ganhei minha independência financeira com 17 anos. Aos 20 anos saí de casa para morar e estudar em outra cidade. Na época da faculdade viajei bastante pelo Brasil, depois fiz o intercâmbio na Espanha, conheci alguns países. Depois terminei a faculdade fui morar em outro estado. Meu esposo também saiu de casa muito cedo, com 18 anos para estudar na Inglaterra. Também viajou muito, morou em diferentes países. Acho que tudo isso contribui para que não tenhamos muitos problemas de comunicação e adaptação. Mas acredito que os problemas entre um casal binacional acontece quando um quer impor sua cultura, religião e/ou seus costumes ao outro. E não é diferente para um casal de mesma nacionalidade. Felizmente nós não temos esses problemas.

JJ: A distância cultural influencia na adaptação geográfica?
No início é sempre difícil. Sempre vai bater uma saudade de casa, dos amigos, da comida, e principalmente do clima (no meu caso). Mas com o tempo e um pouco de paciência as coisas vão se ajeitando. Você começa a ter alguma atividade, conhece pessoas, faz novos amigos. Começa a valorizar mais as coisas boas do lugar onde você está vivendo... e assim vai. Eu não sei como vai ser isso... não sei se algum dia vou me sentir tão a vontade em outro país como me sinto no Brasil. Enfim... faz poucos meses que estou aqui, então de certa forma ainda estou na fase da adaptação. Mas espero que com o passar do tempo eu possa me sentir cada vez mais a vontade aqui. Entre o Brasil e a França (ou a Bélgica) posso dizer que a maior diferença está no trato com as pessoas. De maneira geral na França, ou mais especificamente, em Paris, as pessoas são frias, nem tão educadas como dizem. E nós brasileiros somos muito calorosos. Então esse é um ponto que dificulta a adaptação. Além disso, quando você vai morar em um outro país tem uma série de fatores burocráticos que podem influenciar na sua adaptação. Por exemplo, o fato de você ter um diploma que é de um outro país pode dificultar a sua inserção no mercado de trabalho. Não falar o idioma local também pode ser um fator limitante. Mas tudo é questão de tempo. Acredito que o mais importante é ser paciente e ter consciência de que a adaptação não acontece do dia para a noite. A integração vem com o tempo. O importante é estar consciente disso e correr atrás para reunir as condições necessárias para tornar a adaptação mais fácil (estudar o idioma, resolver a papelada, e estar aberto a conhecer pessoas e fazer novas amizades).

JJ: Quais são vossos planos futuros?
No futuro queremos estar estabilizados profissionalmente. Ter um ou dois filhos e comprar uma casa na praia, de preferência no litoral baiano, onde nosso amor amadureceu.

 

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