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Arte que fere, arte que sara

Sobre as impressões que nascem de quando o corpo se rende à performance  

Por Kaito Campos

 

Entre as etiquetas que marcam onde começa um jeito de se fazer arte e outro, como a música, teatro ou o cinema, quase nunca nos lembramos da performance. Ela fica ao meio, como se colasse a interpretação à pintura, caminhando velo registro em vídeo, cerceando o tridimensional, dançando, cantando ou emudecendo. Na performance só não existe cerca. Ela cabe debaixo da lona do circo, nos trejeitos do palhaço e no equilíbrio do malabarista.

Eu mesmo chamo de performance aquilo que tenho a impressão de que seja arte, mas não sei por quê. Claro que muitos símbolos passam pelo que entendo por arte. Não sigo escola de Frankfurt, conceitos do filósofo Benjamin ou nada. Sobre o que ela é, prefiro a versão do quadrinista Scott McCloud, que a definiu como todas as coisas que fazemos desde que não sejam por vontade de reproduzir ou de sobreviver.

Na verdade, eu poderia filtrar mais ainda o conceito de McCloud, somando às coisas que produzimos o corpo da gente, gerando arte orgânica. Essa cabe na pele, na tatuagem feita com tinta ou com linha, costurada, como fez nas próprias mãos a artista plástica Eliza Bennett. O risco da vida na palma da mão de Eliza tem textura de algodão corado de sangue, uma performance viva.

Eliza me faz lembrar a Marina Abramovic, cultuada performancer sérvia. Não há fase da vida de Marina que não coube performar. Até mesmo no divórcio, ela e o marido, o também performático Ulay, fizeram-no sobre as Muralhas da China. Cada um partiu de um extremo, encontraram-se ao meio do caminho, segurando bandeiras para, rendidos, se separarem.

Enquanto casal, Ulay e Marina fizeram performances históricas, gravadas em vídeo e foto para não se perderem na efemeridade de memórias. Fizeram guerra de grito. Passaram pela iminência da morte, ao encenar os riscos do amor na imagem do cupido e sua flexa. Uniram os cabelos. Puseram-se nus entre corredores estreitos por onde deveriam passar toda a gente que foi à galeria “só para ver” e acabou dentro da arte.

Noto que chego ao fim do texto cerceando a performance como a manifestação sem finalidade de sobrevivência ou reprodução que parte do corpo do artista e toca o corpo do leitor. Gera impressões, como as demais “etiquetas”, mas gera também a participação, contato entre quem produz e quem recebe, mediados por sensações incompreendidas, mas artísticas, porque não sei.  

 

Fonte : FIC

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