Weby shortcut
4884
Tania Hoff

Técnica aliada à formação humana no campo da publicidade

Tania Hoff explica que o publicitário precisa pensar a prática e ter análise crítica em relação ao trabalho que está realizando 

Por Lorraine Carla

Ter criatividade, saber lidar  com a pressão do tempo, conhecer a técnica, ser adepto de novas tecnologias e estar atento ao campo de pesquisa da área são pontos chaves no trabalho de criação publicitária, mas não só isso que torna o estudante em profissional. Tania Hoff professora e pesquisadora de  Mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo da Escola Superior de Propaganda e Markenting (ESPM)  afirma que para ser um bom profissional, o publicitário não deve apenas priorizar a técnica e mercado, mas principalmente se preocupar com a sua formação humana. 

JJ- No concorrido mercado publicitário, o que o profissional precisa ter para se destacar? 

Tania Hoff - profissional tem que ter essa noção de que o mercado publicitário ou o campo publicitário dialoga o tempo todo com a sociedade. Ele não deve se formar pensando só no mercado, o publicitário tem que pensar na sua formação humana, antes de ser um profissional ele é um cidadão, um ser humano. Quem se forma pensando nessa condição humana é capaz de suportar as mudanças do mercado e responder as demandas desse mercado. Com isto ele se torna um humano bem formado e assim pode trabalhar maravilhosamente dentro do mercado publicitário, porque ele também terá a técnica. Esse é ponto de equilíbrio de destaque na profissão. As dificuldades que se apresentam para nós pedem mais que técnica, elas exigem um profissional consciente do lugar dele no mundo, que tenha autonomia. E o que nós  autonomia é a construção de conhecimento. 

JJ-Como você acha que o publicitário alia a pressão do trabalho cotidiano com boas ideias? 

Tania Hoff - O profissional publicitário mesmo na pressão do trabalho cotidiano precisa ter um distanciamento. Ele precisa responder ao que o mercado pede e ao mesmo tempo fazer uma análise crítica perante o trabalho que está realizando. O publicitário precisa se perguntar se ele está correspondendo ao que lhe é pedido e ao mesmo tempo pensar em como ele está construindo esse mundo, se o seu trabalho ajuda na construção da sociedade ou a quebrar preconceitos. Em nome da pressa o profissional muitas vezes não pensa no que está fazendo e acaba reproduzindo aquilo que todo mundo está acostumado a fazer, mas nem sempre aquilo que todo mundo faz é o melhor. Para mim as boas ideias são aquelas que saem do lugar comum. O profissional, precisa se perguntar se para cumprir o job que recebeu ele precisa criar uma indisposição ou ser preconceituoso. Quando o publicitário pensa nisso ele está pensando no lugar de cidadão dele que é um profissional de publicidade. Ele precisa pensar que mundo ele quer e em como a criatividade se encaixa nesse mundo. 

JJ- Que relação você estabelece entre a prática publicitária e a responsabilidade social? 

Tania Hoff - Quando nós pensamos a prática publicitária e a responsabilidade social, tem sempre uma questão que aparece, o profissional publicitário precisa pensar sua prática e não só corresponder ao que o cotidiano pede.  A prática publicitária precisa ser regida pela responsabilidade social, o profissional publicitário não pode deixá-la de lado por medo de não ser criativo. O que eu sinto é que o profissional tem esse medo de não ser criativo, parece que se ele optar por ser cidadão e responsável, a prática do seu trabalho pode ser prejudicada. A responsabilidade social é um desafio para nossa prática, mas ao mesmo tempo ela não é um empecilho para boas ideias. Elas podem andar juntas. Eu tenho muita fé nessa nova geração de profissionais que estão saindo da graduação, eu sei que nós podemos fazer diferente, ou fazer melhor. Nós podemos mudar aquilo que está estabelecido.   

JJ- Como o avanço tecnológico afetou o campo da publicidade ou mesmo da comunicação?  Quais mudanças você percebeu no modo de trabalhar e estudar a comunicação? 

Tania Hoff - A tecnologia traz para o profissional de comunicação mudanças no fazer. Aquilo que estava dividido em muitos departamentos de repente ficou mais concentrado. As novas mídias trazem uma possibilidade de mudança de formato e com isso surgiu uma publicidade quase participativa. Nós recebemos em uma mensagem no celular uma opinião sobre uma peça publicitária e podemos responder. Nas mídias tradicionais, nós ouvíamos no rádio e assistíamos pela televisão, mas o consumidor não respondia. Apesar disso a natureza social da publicidade não se altera muito, se altera na questão do fazer, nas mudanças do modelo de comunicação que ficou mais interativo, mais dinâmico, mas a natureza social da publicidade que é feita por pessoas que estão na sociedade e que dialoga intensamente com a sociedade, isso continua. Historicamente o profissional de comunicação dos anos de 1980 ou até 1990 tinha certo glamour. Esse momento “pós-moderno da nossa sociedade nos tira desse lugar especial enquanto profissional e nos coloca dentro de uma dimensão mais anônima, apesar da mídia que tem as suas celebridades (risos). 

JJ- Faça uma avaliação de como eventos acadêmicos podem contribuir para que estudantes coloquem em prática aquilo que aprenderam em sala de aula. 

Tania Hoff – Os eventos acadêmicos são um momento de debate, de discussão e de encontro. De debate porque aquelas questões que nós aprendemos em sala de aula e que nós pensamos que vão permanecer em sala de aula acabam voltando nos eventos. Muitos temas vistos nas aulas não são de sala de aula, são da vida profissional. Então esses eventos são muito ricos em debate para nós pensarmos a prática. Quando os alunos organizam e se envolvem com o evento, pensam nos nomes dos convidados que vão participar, fazem contato com essas pessoas, participam da realização do evento e depois do término fazem uma avaliação do que foi o evento, isso no meu ver constitui uma prática. Eu vejo de maneira muito produtiva e necessária os eventos acadêmicos, eles trazem para luz aquilo que está no dia a dia da sala de aula. 

JJ - Como suas pesquisas estão focadas em temas como a representação do corpo na publicidade e o consumo através da mídia, fale sobre o que descobriu de mais interessante ou inovador durante suas pesquisas. 

Tania Hoff - O que eu descobri de mais interessante é o quanto o mercado, que é feito por pessoas, embora nos tratemos o mercado com uma grande entidadefica condicionado por um olhar cultural e, às vezes, de uma cultura ainda elitista, apesar de todo acesso das camadas populares ao consumo. Então quando eu olho está questão do corpo percebo que nós ficamos o século XX praticamente inteiro trabalhando a diversidade, a diferença estética, racial, a diversidade cultural presente na sociedade brasileira de uma maneira "achatada"O olhar do mercado ficou refém de determinados preconceitos que estão na nossa culturaEntão essa questão da representação do corpo é muito reveladora deste olhar que nós precisamos começar a construir. É preciso enfrentar alguns medos e sair do lugar comum, não ficar preso ao que está sedimentado. Há campanhas que saíram do lugar comum e foram sucesso.  

JJ- Faça uma reflexão sobre o papel da mídia na atualidade e diga como ela pode atuar no imaginário das pessoas. 

Tânia Hoff - A mídia atua muito no imaginário. A cultura nas suas práticas já constrói o imaginário. Svocê pensar na mídia como um grande sistema de divulgação de ideias, ancorado na questão da tecnologia é possível visualizar o quanto ela pode construir de imaginários midiáticos que se confrontarão e entrarão em diálogo como aqueles imaginários da cultura antes da mídia. Ela tem um lugar muito poderoso de comunicação e de criação de imaginários. Ela pode atuar reforçando, renovando, questionando e construindo o imaginário. 

 

Fonte : FIC

Categorias : entrevista

Listar Todas Voltar