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Guerrilha do Araguaia

Uma entrevista com Romualdo Pessoa, professor de História da UIFG, sobre a Guerrilha do Araguaia.

A Guerrilha do Araguaia foi um movimento guerrilheiro existente na região amazônica brasileira, ao longo do rio Araguaia, entre fins da década de 1960 e a primeira metade da década de 1970. Criada pelo Partido Comunista do Brasil, tinha por objetivo fomentar uma revolução socialista, a ser iniciada no campo, baseada nas experiências vitoriosas da Revolução Cubana e da Revolução Chinesa.

Desconhecida do restante do país à época em que ocorreu, protegida censura a que o movimento e as operações militares contra ela foram submetidos, os detalhes sobre a guerrilha só começaram a aparecer cerca de vinte anos após sua extinção pelas Forças Armadas, já no período de redemocratização.

O professor de História da UFG, Romualdo Pessoa, que escreveu um livro sobre o assunto, defende a inserção desse episódio na história do Brasil, por ter sido um conflito longo e que custou muitas vidas.

 

JJ - O que foi a Guerrilha do Araguaia?

 

Romualdo: A Guerrilha do Araguaia foi, seguramente, a ação guerrilheira que mais preocupou os militares nos chamados “anos de chumbo”. Ela estoura no momento em que, nas cidades, a repressão estava conseguindo seu intento de eliminar os principais focos de resistência à ditadura, através de uma ação violentíssima e que custou a vida de destacados militantes da esquerda revolucionária. A ousadia, inesperada para os órgãos repressivos, de menos de uma centena de militantes que atuavam na clandestinidade, deslocando-se para uma área bem distante das atenções dos órgãos encarregados em eliminar os movimentos de resistência à ditadura, desnorteou o governo, e fez com que houvesse uma subestimação em relação à capacidade de resistência daquele grupo ao cerco militar que se fez. A partir daí, fracassos, derrotadas, repressão violenta contra a população da região do Sul do Pará, torturas, assassinatos, tudo isso somado, dão a síntese do que pode ser compreendido como um dos maiores erros das Forças Armadas Brasileiras no combate interno à grupos guerrilheiros.

 

JJ - Como foi o processo de organização e publicação do seu livro? O que motivou você a escrevê-lo?

 

Romualdo: A diversidade de opiniões sobre o que foi a Guerrilha do Araguaia, e o estranho silêncio dos militares subsequentemente, sempre me chamaram a atenção. Porque desde meus tempos de faculdade, e de militância no movimento estudantil, eu interpretava como atos de bravuras a dedicação com que jovens, em sua maioria, sendo muitos deles antigas lideranças estudantis, se entregaram a uma causa revolucionária e optaram por viver em uma das regiões mais inóspitas do país. E o que é pior, quase sem nenhuma estrutura militar que pudesse levar a deflagração de um movimento guerrilheiro. E as opiniões divergentes eram do próprio campo da esquerda, porque os militares e os governos silenciavam quando o assunto era o “Araguaia”. E alguns dos que acusavam o Partido Comunista do Brasil, organização que preparou o movimento, de ter agido com base em teorias foquistas e colocado importantes lideranças em situação desesperadora, eram alguns ex-guerrilheiros (que haviam sido presos no início da campanha) e outros dissidentes, que abandonando o Partido passam a ter na Guerrilha do Araguaia a justificativa para o abandono das hostes partidárias.

A publicação da dissertação em livro foi resultado da avaliação feita pela banca examinadora do meu mestrado, que atribuiu nota máxima com indicação para publicação. Por ter sido o primeiro livro sobre a guerrilha fruto de pesquisas para um trabalho acadêmico de pós-graduação e por ser, principalmente, um olhar dos camponeses da região, visto que os depoimentos colhidos na região é o que mais se destaca no meu trabalho, ele terminou por ser referência para todos os outros que surgirão, embora com outros olhares que complementaram a história desse acontecimento.

 

JJ - Por quê, na sua opinião, a Guerrilha do Araguaia deve ser inserida na história brasileira? O que ela tem que a deixa "no mesmo nível" dos outros episódios históricos marcantes?

 

Romualdo: Porque não se pode ignorar um conflito que durou três anos (sem contar o rescaldo pelos anos seguintes) e mobilizou todo o aparato repressivo da ditadura militar, envolvendo mais de dez mil soldados das três forças, além de Polícias Militares de quatro Estados (Pará, Maranhão, Goiás e Mato Grosso) e da Polícia Federal.

 

Não creio que se possa estabelecer comparações, a Guerrilha do Araguaia não tem precedentes em nossa história. Teria se a guerrilha de Caparaó tivesse dado certo, mas fracassou já no início da sua preparação. A diferença é que no Araguaia os participantes não fugiram e resolveram enfrentar os militares. Talvez tenha sido um erro. Mas é difícil condená-los por isso, devido às circunstâncias do momento e pelo fato de praticamente todos eles estarem sendo perseguidos nas cidades.

 

JJ - Você acredita que essa Guerrilha vai ser inserida na história brasileira algum dia? Por quê?

 

Romualdo: Ela já faz parte de nossa história. Desde quando as primeiras pesquisas foram feitas, e eu fui um pioneiro nisso. Hoje já são várias as dissertações e teses sobre o assunto. Com a Comissão da Anistia, as investigações sobre o destino dos corpos dos guerrilheiros e, agora, com a Comissão da Verdade, isso se completa. A amnésia coletiva que os órgãos de informação e repressivos tentaram impor à população, e apagar a guerrilha da memória do povo do Sul do Pará, foi inócua. O que pesquiso agora é o quanto esse acontecimento e a violenta repressão que se abateu sobre o povo daquela região, impactou na vida daquela população.

Fonte : FIC

Categorias : entrevista

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