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Rei do Camarote

Sim, este é outro artigo sobre o rei do camarote

Alexander de Almeida, 39, virou um meme na internet depois de ostentar seu estilo de vida em entrevista para a Veja São Paulo

Por Natânia Carvalho

 

Eu estava no trabalho quando vi o vídeo produzido pela Veja São Paulo sobre o rei do camarote, que atende pela graça Alexander de Almeida. Há dois dias a imagem daquele homem, uma mistura de Gugu Liberato e do governador de Minas Gerais Antônio Anastasia (PSDB), - me perdoem os dois pela comparação – já estava espalhada pela internet e piadas como “agrega valor” em todas as redes sociais. No entanto, nunca havia clicado em nenhuma delas.

Vocês imaginem meu espanto. Um vídeo com um empresário de 39 anos balançando garrafas de champanhe e dando dicas de como ele se torna – e afirma - quem é através de camarotes, carros caros e de mentir a bebida que deseja pedir. “Eu gosto de vodka, mas champanhe é statis (sic)”, ele afirma rindo.

A história começa com a Veja, que deu nome a essa produção de “Os 10 mandamentos do rei do camarote” - os ossos de Moisés se remexeram onde é que eles estejam – e o claro aspecto gozador de sua matéria. A revista, usando do tipo grotesco, do riso cruel contra o personagem – praticamente um bathos retórico – expõe a figura perfilada ao ridículo, chamando a audiência da internet acostumada em transformar personagens caricatos em subcelebridades.

E isso aconteceu. O rei do camarote é tema de Tumblrs, publicações no Facebook e piadas de perfis como Dilma Bolada. Contudo, não nego a indignação que suas falas causam e causariam independente do veiculo e da maneira que fossem divulgadas. A conversa em tom risonho – irritantemente risonho - de Alexander levanta questionamentos profundos como a cultura do VIP e a hipocrisia da pregação de uma estranha equidade: somos iguais até nos devoramos enquanto expomos nossas diferenças de statu(i)s nas redes sociais, por exemplo.

O discurso de Alexander de Almeida reafirma a visão da mulher objeto, ele diz que é impossível pensar um camarote sem moças bonitas. A confissão de que já transou em um banheiro de boate cai de maneira nada delicada em uma semana em que a 7ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revela crescimento de 18,17% no número total de estupros no Brasil em 2012.

Você pode estar dizendo que estou juntando dados que não são necessariamente sinônimos, mas sabemos que os maiores números de estupros acontecem com mulheres e que muitos - muitos deles! - ocorrem em baladas. Então, me desculpe, leitor, mas ouvir a declaração de Alexander me fez lembrar SIM das histórias de algumas de minhas amigas que escaparam de um estupro por um triz no banheiro de uma festa qualquer. E das que não tiveram essa sorte e lidam com os abusos do abuso até hoje.

De um lado garrafas de Veuve Clicquot, de Cristal, ostentação e de noitadas que custam, provavelmente, a casa de onde escrevo agora. De outro, valores notícias e a eterna discussão do fazer jornalismo relevante para a esfera pública. No meio disso? Nós. Que vamos levando tudo em uma indignação barata, tão sem valor quanto compartilhar um meme de Alexander no Facebook, e pensando em pagar as contas com o décimo terceiro. Mas calma, vai sobrar para a cidra do ano novo. 

Fonte : FIC

Categorias : Opinião

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