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Convenções

Porque a sua vida é interessante demais para passar despercebida

Por Cibele Portela

Desde que o mundo é mundo e desde que a sociedade se define como tal, as convenções são tidas como uma identidade social. Fazer algo porque é convencional, falar e se comportar de determinada maneira porque é convencional, são estereótipos sociais, consolidados com o tempo. Ou ainda, podem ser parte de uma moda passageira.

Nesse contexto abordado, as perguntas constituem seu aspecto mais vulgar. Quem nunca ouviu uma pergunta convencional? Quem nunca odiou respondê-las? Quem nunca odiou fazê-las? Pois bem, vamos a uma análise mais profunda sobre o tema. As convenções, nada mais são do que um ciclo vicioso e sem desfecho.

Tudo se inicia com os primeiros anos de vida, nada mais convencional. A primeira estranha que passa, observa o bebê de bochechas rosadas e indaga a mãe: “Quantos anos têm essa gracinha?” Quase sempre a mãe responde, mas quando não, a criança briga com a coordenação motora e demonstra nas mãos a idade que ela cotidianamente é obrigada a decorar.

Os primeiros passos são dados, a criança vai para a escola. Nas festinhas é comum se ouvir: “Aquele é o filho de fulana? Nossa, como cresceu!” Mesmo de mãos dadas com os pais, sempre haverá alguma senhora para perguntar se somos filhos e toda a patacoada convencional de sempre. Não nego, que por diversas vezes tive o ímpeto de negar, “não, sou uma menininha de rua que ela adotou”. De fato, não existe nada mais convencional do que crescer, é a velha lei da natureza, só a sociedade parece não aceitar a situação.

Chegamos à adolescência. Algumas afirmações são destiladas de acordo com sua aparência ou inteligência, nunca ambas. “Como está bonita a filha da Maria.” “E o filho da Suzana? Que menino esperto.”

Ano de vestibular. Esteja certo de que ouvirá 365 vezes para que curso irá prestar. Se a resposta for “nenhum”, se abstenha, não estrague o sonho de quem lhe pergunta. Primeiro lema das perguntas convencionais: responda exatamente o que a pessoa quer saber, assim será possível evitar mais perguntas convencionais.

Festa de família. O tio chato ou a tia de cabelo roxo, se aproxima de você e pergunta: “E aí, já está namorando?” É incrível como relacionamentos são atestados de felicidade. Esta é a única pergunta para a qual a regra anterior nem sempre deve ser obedecida. Caso a resposta seja não, você se tornará digna de pena, como é possível que alguém viva sem um relacionamento? Desculpe tio, mas o mundo é estranho. Se a resposta for sim. Parabéns, você será o orgulho da família.

Próxima festa de família. Você leva o namorado. A tia corre entre as pessoas, com a boca espumando de tanta vontade de comentar o episódio. “Que graça, minha sobrinha, gostei de ver. Pra quando é o casamento?” Nada, nunca, será suficiente para a sua família. Um degrau sempre levará ao outro e você será questionado sobre isso constantemente.

Dois anos depois. Você desfila graciosamente por mais um evento familiar. Na sua mão esquerda brilha uma aliança delicada de ouro maciço. A tia caminha com dificuldades, se equilibra pesadamente sobre seu andador. Ela sorri ao te ver. “Casou, hein minha filha? Pra quando são os filhos? Quero ver um monte de crianças correndo por essa sala, viu?” Você respira fundo e entorna a taça de vinho.

Um ano depois. Sua mãe insiste para que vocês visitem a velha tia que está beirando à morte. Você tenta argumentar que não quer levar o bebê, já que a tia está muito doente. Mesmo que contra gosto, você vai, pois a tia ainda não teve a chance de ver o quão lindo é o seu bebê. Com a voz rouca a velha parabeniza pela beleza e saúde do bebê. Você sorri, como boa mãe coruja que é. Mas os comentários não acabaram. Entre tosses e pigarros ela lhe diz: “Esse garotão precisa de um irmão.” Você sai do quarto pisando duro e se pergunta quando sua querida tia enfim estará contente e satisfeita. Talvez morta, quem sabe.

Fim do ciclo? Não, está é a herança mais linda que você deixou para seus filhos. A tia velha já partiu, mas outros terão esta tarefa. O vínculo social é, para muitos, algo essencial. Por isso, cedo ou tarde, alguém se preocupará excessivamente com a sua vida. Se preocupar com o outro é mais fácil do que lidar com os próprios problemas e frustrações. É a lei natural, por isso sorria e ignore. Seja só mais uma pessoa conveniente. 

Fonte : FIC

Categorias : Opinião

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