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Movimento online busca uma nova Reforma Protestante

Líder do projeto “Eu quero uma Igreja”, Ádryan Edin é contra os dízimos, denominações e defende que a Igreja são as pessoas.

Por Gabriel Trindade

De acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Folha de São Paulo, foi percebido que em um intervalo de seis anos, de 2003 a 2009, quatro milhões de evangélicos deixaram de ter vínculo com igrejas. Segundo o líder do projeto “Eu quero uma Igreja”, Ádryan Krysnamurt Edin da Luz, 26 anos, nesta mesma proporção de um milhão de evangélicos saindo por ano dos templos teríamos hoje cerca de sete milhões de pessoas fora das igrejas.

Chamado apenas de Ákel, que corresponde as iniciais do seu nome, não acredita que dízimos devam ser devolvidos para os templos, nem em denominações e que também não existem pastores. Ákel chama as denominações de sistema religioso e defende que a própria ideia de Igreja foi desvirtuada da Bíblia. Segundo ele, o projeto não recebe doações, nem se considera um movimento evangélico. Além disso, defende que a Igreja são as pessoas.

O projeto faz uso da internet para divulgar seus trabalhos. Os cultos do “Eu quero uma Igreja”, que surgiu em 21 de maio de 2012, acontecem online por meio do Hang Out do Google+, todos os dias da semana, à noite. As pessoas podem optar por participar diretamente dos debates, ou apenas assistirem no site www.euqueroumaigreja.com, os vídeos gravados no Youtube.

JJ: O que levou você a criar o projeto “Eu quero uma Igreja”?

Ákel: Eu nasci em um lar cristão. E com o decorrer dos anos eu acompanhei muito isso. Tanto em amigos como vizinhos, percebi mais de 70% das pessoas decepcionadas com o sistema religioso. Começaram a congregar em casa, transformaram o lar em Igreja. E eu convivi com isso na infância e na adolescência. Eu sentia que estava sendo preparado para ser apenas pregador de passagens [bíblicas], mas de três anos para cá eu comecei a ter curiosidade ao ser extremamente desprezado por pregar verdades. Quando eu percebi esse chamado em João 10:4 e Apocalipse 18:4, que nos pede para sair deste sistema religioso, eu comecei a ensinar isso e a passar por retaliações. Eu era considerado obreiro de segunda classe. De uns três anos para cá eu comecei a estudar a Bíblia de um jeito que eu nunca estudei antes, sem teologia ou qualquer influência humana. As pessoas dentro do sistema religioso acham que, aqueles que nos ensinam a palavra, estão nos passando um conhecimento, mas na verdade estão desvirtuando aquilo que a Bíblia realmente está nos falando. Foi aí que eu comecei a estudar somente eu e ela. Sem ninguém, nenhum mediador, nenhuma denominação ou religião. E descobri verdades absurdas.

JJ: Quais seriam essas verdades?

Ákel: Primeiro: templo. Até então quem está dentro do sistema religioso vai ao templo, seja Católico ou Protestante. E, você descobre uma coisa tão simples em 1 Coríntios 3:16 que diz: “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?”, ou seja, nós somos o templo. E dentro dessa verdade tomando também como exemplo João 2:17-22 dizendo que o templo agora depois que o véu se rasgou, ou seja, depois da morte de Jesus Cristo não é mais o Templo de Salomão. Em Atos 17:24,25 percebemos que Deus não habita em templos feitos por mãos humanas. Isso foi repreendido por Estevão e Apóstolo Paulo. Assim como Pedro que vem de petros, ou seja, pedra pequena. Nós somos pedrinhas pequenas que formam a única pedra, rocha firme e inabalável, que é Jesus. Então, quando ele falava sobre edificar a Igreja sobre essa pedra ele não falava de Pedro, mas dele mesmo. O próprio Pedro disse em sua epístola que Jesus era a pedra angular. Por isso, somos pedras e formamos um único edifício. E, você fica chocado com o que o sistema religioso ensina. Ele fala que você é o templo do Espírito Santo, mas ele diz que você tem que ir aquele templo, em que Deus não habita feito por mãos humanas, para ser um adorador, para ser um membro da Igreja.

JJ: O que você acha das denominações? 

Ákel: Essas denominações se intitulam Igrejas... Como Assembleia de Deus, Batista, Quadrangular, quando na verdade se você abrir em João 17 ali surge o clamor “Eu quero uma Igreja” quando Jesus rogou ao Pai por uma Igreja. Ele pedia para que não houvesse divisão, mas que nós fossemos apenas um como o Pai e Ele. Foi aí que surgiu o “Eu quero uma Igreja”. Você vai 365 dias no ano para o templo e você não sai de lá saciado, com raríssimas exceções. Eu cansei de passar vergonha quando eu evangelizava e levava pessoas para o templo e nos deparávamos com petição de dinheiro, com gritarias, sons estridentes, essas coisas todas. Você cansa e chega um ponto que você pensa ser o único patinho feio da história. Todo mundo falando a mesma língua e você não. E é o que está acontecendo com todas essas milhares de pessoas que vêm para o projeto. Todas elas dizem a mesma coisa: “Eu estava no sistema e comecei achar que eu estava louco. Eu achava que somente eu pensava assim. Somente eu via esses erros”. Então denominações não é Igreja porque somente existe uma Igreja e esta é Cristo [Jesus]. Esse único corpo. Essas denominações são instituições, empresas. O projeto “Eu quero uma Igreja” é um projeto, não uma Igreja.

JJ: O que você pensa sobre os dízimos e ofertas?

Ákel: As pessoas me dizem que se for verdade tudo que eu falo sobre este assunto, vai escandalizar e por isso não deveria falar. Mas, eu me pergunto que se buscamos a verdade e Jesus é a verdade, não devemos pregar, falar disso? O que eu descobri com a Bíblia sem influência de ninguém foi que o maior erro de todas as denominações, do sistema religioso inteiro foi a subdivisão do Antigo Testamento para o Novo Testamento, em todas as Bíblias, sejam Católicas ou Protestantes. Temos aquela página branca que separa Malaquias de Mateus. Isto é uma grande problemática. Tudo que é herético vem disso: dízimo, templocentrismo (sic), legalismo, tudo vem por causa disto porque nos primeiros capítulos de Mateus, Marcos, Lucas e João ainda é Velho Testamento antes da morte de Jesus. O Novo Testamento começa apenas quando o véu se rasga, com a morte de Jesus. Após isto, temos a quebra, a Nova Aliança que separa tudo. Em Mateus 27:51 quando Jesus entregou o Espírito, ali temos uma série de eventos que vem realmente marcar o Novo Testamento. Em Hebreus 9:15-18 temos que Jesus é mediador de uma nova aliança “porque onde há testamento é necessário que intervenha a morte do testador”. Se alguém deixar de dar dízimo por corrupção [de pastores] ou por entendimento de verdades bíblicas, pelos dois motivos esta pessoa estará correta. Recentemente, tivemos o testemunho de 30 pessoas que deixaram de ser dizimistas junto com o pastor da cidade de Avaí do Jacinto (MG) por causa do projeto “Eu quero uma Igreja”. E, o sistema religioso está furioso com o projeto porque são menos pessoas para manter o sistema caro que eles criaram. O dízimo morreu na cruz. Fora dos holofotes, nos bastidores, como aconteceu comigo quando um líder me levou para pescar, apenas nós dois, eles confessam que o dízimo morreu na cruz, mas que precisam dele porque tudo é muito caro.

JJ: Não existem trechos bíblicos que corroboram o dízimo?

Ákel: A começar do Antigo Testamento para o Novo Testamento, em Malaquias 3:10 temos um texto fora do contexto quando os líderes leem apenas um trecho. Mas, o povo que se diz de fé, cristão, tem preguiça de ler. No livro de Malaquias, versículo a versículo, percebemos que o povo não estava roubando, quem estava desviando os recursos eram os sacerdotes. Sempre foi. Em todo o contexto do capitulo 3, temos no trecho “Vós me roubais” se referindo aos Filhos de Levi, ou seja, os sacerdotes. Tanto que no capítulo 2 fala sobre os sacerdotes. As palavras dos pequenos profetas eram refutando e denunciando o tempo todo, os sacerdotes. Temos aqui o “fogo do ourives”, o “sabão dos lavandeiros”, coisas que os sacerdotes precisavam. Eles estavam envolvidos em mentira, adultério, feitiçaria. Aí depois vem os líderes chamar o povo de ladrão. É de uma manipulação bíblica extraordinária. Em Mateus 23:23 percebemos que não se trata de Novo [Testamento], ainda estamos no Antigo [Testamento], em que Jesus não morreu ainda, e temos novamente que o dízimo era lei, não era dinheiro, era mantimento, comida, mostrando que o mais importante era a justiça, misericórdia e fé. Hoje, o dízimo virou indulgência protestante.

JJ: Como você interpreta esses líderes se denominarem pastores?

Ákel: Com a morte de Cristo [Jesus] temos apenas um Sumo Sacerdote e Pastor que é Ele. E, Somente Ele detém este titulo. Em Hebreus 13:17 fala para obedecer. Na Bíblia adulterada do sistema religioso, seja Católico ou Protestante fala: “Obedecei vossos pastores”, mas no original não é assim. Eles manipularam aquele versículo para dar força ao sistema religioso. Autoridade espiritual que não existe para os homens. Não é “Obedecei”, é “Imitai”. Não é nada forçado, ninguém tem autoridade sobre a vida de ninguém. Hoje eles chamam líderes de pastores. Hoje eles chamam homens de autoridades espirituais baseados em Romanos 13, quando na verdade este versículo se refere a autoridades sociais. Hoje eles chamam cantores e pregadores de ungidos, mas apenas Cristo [Jesus] é Ungido. Por exemplo, Lúcifer, Shekinah, capeta, isso está na boca do povo, mas são três palavras proibidíssimas. Quando você chama Satanás de Lúcifer você está atestando que ele é como Jesus, que ele é estrela da manhã como Jesus. Agora o que permaneceu da lei? Isso gerou um grande debate em Atos dos Apóstolos com pessoas que queriam trazer a lei e os costumes judaizantes para a Igreja de Cristo e quem não queria nada disso. Por isso, houve uma assembleia para decidir sobre isto. Está lá em Atos 15, quando foi decidido o que seria mantido do Antigo [Testamento] para o Novo [Testamento]. E, ata da reunião deu uma parecer final, que está em Atos 15:28,29 em que disseram que “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além destas coisas essenciais: que vos abstenhais das coisas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue, da carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitas; destas coisas fareis bem se vos guardardes”. Com esta grande assembleia ficou decidido que apenas isto então ficaria da lei. 

JJ: Você é contra denominações? Pastores assalariados?

Ákel: Sim. Eu não sou contra as pessoas. Todo o Novo Testamento fala de coleta para pobres, não era para pagar rádio nem televisão, nem para pagar salário pastoral. O que existia era também coleta para os Apóstolos. Como está em 1 Coríntios 9. Quem eram os Apóstolos? Os enviados. Hoje o sistema religioso tem um termo: Missionário. Que é mais ou menos esta função. Aquele que vai para terras longínquas, não tem como trabalhar e precisa de tempo integral para guiar as pessoas, orientar. Neste caso precisa de subsídios. Somente neste caso é aceitável [os salários].

 

 

Fonte : FIC

Categorias : entrevista

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