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Reprodução

O Cinema e a Dança Árabe

Uma análise do que há além de uma simples cena de dança do ventre nos filmes Hollywoodianos

 

Por: Andressa Ricco

A sétima arte tem o dom de nos fazer viajar para outros universos, viver outras vidas e conhecer novas culturas. E um dos universos que encanta o povo ocidental é o mundo árabe, sobretudo a dança do ventre que traz toda uma bagagem cultural, além de ser uma arte milenar.

Mas será que as retratações da dança do ventre no cinema ocidental correspondem ao que a dança realmente representa? A professora e bailarina de dança do ventre, também atriz, formada em Artes Cênicas pela UFMG (Belo Horizonte-MG) e estudante de pós graduação em Dança e Consciência Corporal pela Universidade Gama Filho – UGF, Carol Malaguth, falou sobre sua opinião em relação ao assunto e como vê esse cenário nas telonas dos cinemas tanto ocidental, como oriental.

Ela diz “a pergunta talvez queira saber se a dança do ventre é sempre retratada com caráter erótico em filmes de uma forma geral. Pela minha breve pesquisa, eu diria que não, nem sempre. Em filmes como Moscou contra 007 (From Russia with love), Jogos do Poder (Charles Wilson’s war – 2007), Vanity Fair, The Man W Bogart's Face, O Ladrão de Bagdad, ou na famosa cena de Rita Hayworth como Salomé, a dança aparece com um ar de sedução e até erótico, eu diria".

Ela ressaltou ainda que não são em todos os filmes que se fala em “dança do ventre” propriamente, porém ela é nitidamente a base de onde tiram a coreografia e caracterização das bailarinas para a cena e, claro, é o que vai construindo o imaginário do público que assiste a esses filmes a respeito da dança. E podemos dizer que esses são filmes tipicamente ocidentais ou hollywoodianos.

A retratação do mundo árabe

O cinema egípcio começou no ano de 1920 exibindo cenários de night clubs com cenas de música e dança árabe. Já em Hollywood houve uma grande influência da fantasia ocidental sobre o oriente, o que incentivou algumas mudanças nos costumes das dançarinas árabes retratadas.

 Em outros filmes, como aqueles que seriam “árabes-ocidentais” ou no citado filme chinês, por exemplo, a forma de retratar a dança do ventre não é pelo erotismo. No entanto, o que se percebe é que a dança do ventre é retratada de formas muito diferentes pelo cinema, e que talvez a forma erótica incomode às bailarinas de dança do ventre enquanto praticantes dessa arte, pelo fato dela não representar a verdadeira essência da dança, nem de suas inúmeras praticantes pelo mundo a fora.

Ao falar especificamente sobre a exploração do lado sensual da mulher envolvendo a dança do ventre, Carol disse que se trata da repetição de um clichê que não representa mesmo a dança do ventre, nem suas praticantes. “Não é uma questão de querer negar que a dança trabalhe aspectos da sensualidade feminina, mas retratá-la somente por esse aspecto é muito limitado e infiel à realidade.

Ela acrescentou também que o mercado do erotismo é muito lucrativo, mesmo que esse erotismo esteja diluído em cenas em um filme comercial. "Sabemos também que o objetivo dessas cenas não é mostrar a dança. O risco que corremos é de que essa imagem da dança que traz certo lucro para quem trabalha com o mercado do erotismo, pode também afastar pessoas que se interessariam pelos aspectos reais de trabalho da feminilidade que a dança do ventre promove” afirma.

A técnica da dança no cinema

Em relação ao nível técnico apresentado pelas bailarinas de dança do ventre no cinema Carol Malaguth disse que sua resposta poderia assustar a princípio, mas que há uma explicação. “A dança que eu já vi no cinema é exemplar, tecnicamente falando, porém em técnica de dança ocidental. Em 6 cenas/filmes dos que pesquisei, a dança apresentada está muito mais próxima do balé moderno, da dança contemporânea, do jazz, desse tipo de dança dançada por cantoras pop e até mesmo do strip-tease” declara.

De acordo com ela Hollywood, especificamente, tem uma qualidade técnica impecável e não se vê coreografias simples, nem bailarinos mal treinados em seus filmes. Porém não é a verdadeira dança do ventre, que talvez seja pouco sexy para os objetivos cinematográficos.

Carol afirmou ainda que das seis cenas que analisou, a do filme 007 é a que mais tem fidelidade com a dança e música árabe, mesmo a bailarina tendo atitudes que não vemos em uma apresentação típica de dança do ventre. “Então, eu não diria que deixa a desejar, mas que não se trata de dança do ventre e sim de uma dança estilizada, bem coreografada e bem executada seguindo regras de outras danças” ressalta.

Quando perguntada sobre bons filmes sobre o tema que poderia indicar Carol afirmou que nem todos serão encontrados facilmente. Segundo ela para ver uma dança de primeira, indica os filmes da “Era de Ouro” do cinema Egípcio, e que neles é possível ver números de dança maravilhosos com bailarinas/atrizes que são mitos da dança do ventre e que influenciam a dança até hoje, como Naima Akef, Taheya Carioca, Souhair Zaki, Samia Gamal e muitas outras.

“Eu gostei do Whatever Lola wants. É bem água com açúcar, muito fantasioso, mas é um filme leve e com boa dança. Há uma cena com a personagem da bela atriz libanesa Greta Lebbos ensinando a Lola a dançar que é realmente emocionante para quem pratica a dança do ventre.

Carol ressaltou ainda que está louca para ver o My mother is a bellydancer e Just like a woman, mas ainda não conseguiu encontrá-los. Ela disse ao final da entrevista, que o documentário egípcio In the night, they dance, não exibe uma boa qualidade em dança, mas mostra uma realidade egípcia contemporânea muito bem retratada.

Fonte : FIC

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