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Protestos em Goiânia

Protestos na capital apontam uma evolução do movimento pelo transporte público

Victor Hugo Viegas é integrante da “Frente de Luta Contra o Aumento da Tarifa” em Goiânia, grupo que se mobiliza em torno da luta pelo transporte público de qualidade na região metropolitana. Com pautas ligadas às planilhas de custos e à participação popular na gestão pública, a “Frente” discute o direito à cidade, o direito de ir e vir e as possibilidade de locomoção na capital. Conversamos com Victor Hugo sobre as recentes manifestações em Goiânia.

 

JJ: Há quanto tempo existe a Frente de Luta?

Victor Hugo: Pouco mais de dois meses. A frente de luta contra o aumento foi criada no final de abril desse ano, em uma reunião aberta.

JJ: Como vocês se organizam?

Victor Hugo: Nos organizamos por meio de reuniões presenciais. As reuniões tem sua pauta e a sua mesa definidas na hora, todos tem voz igual, podem fazer propostas e assumir tarefas. Existe um caráter de assembleia. Temos comissões para as manifestações, e comissões permanentes, como a de finanças e a de imprensa. Há aproximadamente 2 semanas, criamos um critério de participação - a pessoa só pode votar a partir da segunda reunião. As reuniões são o momento principal de horizontalidade, construção coletiva da luta e participação ativa de todos os integrantes, e costumam ter mais de 3 horas de duração.

JJ: Como você vê a evolução dos protestos em Goiânia?

Victor Hugo: Tivemos uma progressão bastante curiosa. Ao longo dos anos, a forma de organização foi se refinando e a discussão do transporte coletivo foi se aprofundando. Em 2013, eu percebo uma análise mais completa do sistema de transporte, estratégia de luta e proposta organizativa novas.

No primeiro protesto, nos antecipamos ao anúncio do aumento. Estávamos cientes de que ele era feito conforme uma cláusula no contrato. Bloqueamos a rua com pneus e atacamos uma entidade específica, a CMTC, que sabíamos ser o ponto fraco da articulação.

No segundo protesto, com uma participação maior, tentamos ir a um terminal e sofremos uma repressão muito violenta, seguida de uma resistência forte e repercussão nacional. Impedimos a reunião que ia deliberar o aumento e chamamos mais um protesto, mas falhamos. Aí começamos a articular para baixar a passagem, algo inédito em Goiânia. Geralmente tudo acaba quando os empresários decretam o aumento. E ficamos surpresos porque houve uma participação grande das pessoas e uma vontade de resistir muito grande. Houve a queima dos ônibus, fomos chamados de terroristas pela mídia e no outro protesto que convocamos, que também teve bastante gente, a população aplaudia a gente na rua.

Foi nesse momento que conseguimos barrar o aumento e estouraram os protestos em São Paulo e Rio de Janeiro. Esse estouro alterou toda a dinâmica. As pessoas que iam nos primeiros cinco protestos eram mobilizadas pela nossa discussão, pela panfletagem nas escolas, cartazes, contato direto, pelo acordo com a pauta de reivindicação.

JJ: O sexto protesto foi o que mais teve adesão popular. Como foi?

No sexto protesto de 20 de junho, houve um boom da mídia e tínhamos que competir com toda a máquina de governo e dos meios de comunicação. Antes desse boom, já havia bem mais pessoas confirmadas do que o normal para o protesto. Mas o boom midiático deu um inchaço e levou pessoas totalmente fora de sintonia com o movimento para lá. Não que fossem pessoas despolitizadas, mas o motivos pelos quais estavam lá eram bastante confusos. A luta do transporte ficou engolida, ficamos isolados uns dos outros. E uma grande quantidade de gente que poderia ter feito muita coisa não conseguiu fazer nada além de dar um passeio no centro, cercado pela polícia e policiado pelos próprios manifestantes.

O último protesto foi voltado contra a criminalização dos movimentos sociais. Voltamos a ter um foco, mas não nos mobilizamos muito, de modo que foi uma reduzida quantidade de pessoas. Contudo, eram pessoas ativas, comprometidas, sabiam por que estavam ali e concordavam com o que estava acontecendo. Conseguimos o que tínhamos planejado fazer, entregar cartas para o Ministério Público e continuar a pressão contra os empresários do transporte, além de ajudar as pessoas que irão sofrer processos criminais por questões políticas. Tivemos uma coesão maior. É um momento de reconstrução.

Fonte : Facomb

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