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Gustavao lima

Eu quero tchu: uma análise adorniana da infantilização da música sertaneja

Esse novo sertanejo, como diversos outros estilos musicais da indústria cultural brasileira, faz uma substituição do prazer da apreciação da obra de arte musical por um entretenimento momentâneo


Por Lídia Cunha

A música sertaneja goiana passou por uma brusca transformação nesses últimos anos, principalmente nas letras das músicas, que agora, além de usar monossilábicos infantilizados, fazem maior apologia a baladas e a bebedeiras. Se antes a música sertaneja antes falava do romantismo de um homem em busca do grande amor de sua vida agora o que mais se fala é do desejo de ter uma mulher “gostosona”, só para “ficar”.

O sertanejo de hoje também incorporou ritmos de axé, pagode e funk, o que tem descaracterizado a música sertaneja clássica. E essa música, que carrega o rótulo de sertanejo universitário, vem conquistando cada vez mais adeptos, fazendo sucesso também entre as crianças. Eu quero tchu, eu quero tcha; tchê tche re rê tche tchê, barabarabará berebereberê e lelelê são alguns dos hits que caiu na boca da moçada, aliás, de todos nós, que mesmo sem querer ouvimos enquanto caminhamos pela rua, na televisão, ou o vizinho que passa essas músicas o dia inteiro.

Entretenimento momentâneo

Com passinhos simples mostrados à exaustão na TV, na rua, no bar, nas academias e ainda ensinados pelos jogadores de futebol ao comemorar um gol, mesmo sem querer aprendemos esses passos. Mas, afinal de contas, que música é esta que mesmo com letras tão infantis ganha tantos adeptos? Para responder melhor essa pergunta podemos recorrer a um filósofo crítico alemão do século XX, Theodor Adorno, autor da vários estudos sobre a Indústria Cultural.

Adorno, em seus estudos sobre música popular, introduziu o conceito de estandardização como característica fundamentação desse tipo de música. Ou seja, a melodia e a música são construídas de um modelo ou de uma forma estrutural definidos, garantindo ao ouvinte de que o hit acabará conduzindo-o de volta a mesma experiência familiar, sem qualquer mudança. Isso facilita a compreensão e consequente aceitação da música. A música popular de Adorno, que podemos ler como música sertaneja universitária ou pop, subsiste sob processos insistentemente repetitivos, que determinam seu reconhecimento por parte do público ouvinte. A estrutura dessas músicas de Gustavo Lima, Cristiano Araújo, Michel Teló, é a mesma.

Essa forma estandardizada da música sertaneja, assim como diversos outros estilos musicais da indústria cultural brasileira faz uma substituição do prazer da apreciação da obra de arte musical por um entretenimento momentâneo. Adorno até brinca com conceitos marxistas, como o principio da troca, para falar da troca das verdadeiras composições por músicas com o predomínio excessivo de arranjos e de efeitos coloridos executadas sobre os estilos musicais nostálgicos passados de moda, pelo seu valor evocativo.

Estandardização da música

Adorno acredita que essa estandardização da música faz os ouvintes regredirem não apenas fisiologicamente, mas também psicologicamente. “O sentido da regressão da audição não se dirigia para uma música de uma época anterior, mas para um "estado infantil" em que o ouvinte era dócil e passivo e temia tudo o que fosse "novo" ou "não-familiar".” Ou seja, essas músicas silábicas (barabarabará berebereberê) regridem a audição de tal maneira, e infantilizam o espectador, que até mesmo crianças que ainda estão aprendendo a falar sabem cantá-las.

Adorno compara a música com os alimentos. Ele fala que assim como as crianças só pedem alimento que as agradaram no passado, o ouvinte que tem seu ouvidoaudição regredido só é capaz de reagir diante da repetição daquilo que já escutou alguma vez. "Isto significa que o ouvinte revela uma crescente incapacidade de concentração em qualquer coisa, exceto nos aspectos banais e truncados de uma composição".

O grande desafio dos autores dessas músicas, para atender ao pedido da Indústria Cultural, é compor músicas ao mesmo tempo idênticas e diferentes. É por isso que ouvimos tantas músicas sertanejas silábicas, e elas não param de surgir. E esse tratamento de adultos como crianças acaba sendo uma forma de trazer descanso ao trabalhador, é a fuga ilusória da rotina, como diz Adorno, com a função de revigorar o trabalhador para a exploração de seu trabalho. Nas palavras de Adorno, "a diversão é o prolongamento do trabalho sob o capitalismo tardio". Nesse sentido, as letras da música sertaneja pop também vem trazendo elementos dessa diversão, que são bebida alcoólica, mulher, sexo, festa, amigos.

Não interessa se ora é “Eu quero tchu”, ora “barabara berebere”, ou “tche tche rere”, todas se caracterizam com elementos regressivamente infantis reproduzidos nas letras e nas músicas para garantir uma difusão como mercadoria simples e de fácil assimilação. Assim, as ideias de Adorno, mesmo sendo da década de 1940 do século passado, estão mais lúcidas e vivas do que nunca, e são instrumentos importantes para auxiliar na compreensão desse novo fenômeno da música sertaneja pop.

Fonte : Facomb

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