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Um olhar mais de perto

A violência doméstica é um problema que atinge todo Brasil, independentemente de classe social, mas segue praticamente invisível devido à falta de denúncias

 

 

 

Rita Oliveira, formada em pedagogia pela Universidade Federal de Pernambuco, trabalha há 3 anos como educadora social na unidade do CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) de Silvânia, GO. Ela falou sobre a violência como um problema social e sobre o acompanhamento de famílias e pessoas atingidas por abusos e maus-tratos e violação de direitos realizado pelo CREAS, que ajuda a recuperar os indivíduos afetadas graças às denúncias realizadas.

 

Por Laysse Sanches

 

JJ: Quais são as pessoas atendidas pelo CREAS?

O CREAS deveria atender crianças, adolescentes, mulheres, deficientes e idosos que sofrem violência e tem seus direitos violados e também suas famílias, mas em Silvânia atendemos basicamente crianças e adolescentes e eventualmente mulheres e idosos. Ainda não temos espaço e as condições necessárias para atender a todos. Trabalhamos também com jovens infratores acompanhando o cumprimento das medidas socioeducativas que são determinadas pelo juiz.

 

JJ: Como é feito o atendimento?

Primeiro a criança passa pelo educador social e depois pelo psicólogo. Durante todo o procedimento fazemos atendimentos psicológicos e educativos, incluindo acompanhamento escolar. Os jovens infratores passam pelo mesmo atendimento e nós temos ainda a responsabilidade de engajá-los em algum tipo de curso ou atividade para que eles não fiquem ociosos.

 

JJ: Quanto tempo dura o acompanhamento?

Eles ficam até a equipe estudar o caso e constatar que estão se recuperando. Existem casos de recuperação rápida e outros mais demorados. Algumas crianças são muito difíceis de recuperar porque são tratadas, mas chegam em casa e veem os mesmos tipos de violência que estamos tentando combater.

 

JJ: Qual é a reação das crianças durante o acompanhamento?

As que sofreram abuso sexual geralmente ficam muito traumatizadas, chegam machucadas, muito fechadas. Quando são pequenas não entendem o que sofreram, então temos que conversar, brincar até que se sintam acolhidas, então nós tocamos no assunto e elas se identificam... Algumas choram, outras ficam com muita raiva, outros se revoltam, quando colocam tudo para fora é que começa realmente o tratamento. Nós as ensinamos a conviver com o que aconteceu e garantimos que não aconteça novamente, trabalhamos a aceitação e o perdão. Já os maiores percebem que queremos saber a verdade, muitas vezes são orientados pelos pais a não falar e ficam confusos. Temos que ganhar a confiança deles e são necessárias várias sessões até que chega um momento que eles falam, até mesmo por já estarem saturados.

 

JJ: Vocês trabalham também com o agressor?

Só em casos de negligência física e psicológica porque nossa equipe ainda é pequena, contamos apenas com um agente administrativo, um assistente social, um educador social e dois psicólogos. Mas já estamos nos preparando para atender o agressor em casos de violência sexual.

 

JJ: Quais são as providências tomadas em relação a quem comete a violência?

Quando a criança fala e nós descobrimos o que está realmente acontecendo, fazemos um relatório para o promotor, os pais são chamados e ele toma as medidas cabíveis. Quando o abusador está dentro da própria casa ele é afastado e quando isso não é possível retiramos a criança e ela vai para uma família de apoio.

 

JJ: Quais são as razões que frequentemente levam à violência doméstica?

A negligência, que é uma forma de violência, acontece em muitas ocasiões por causa da situação social. Às vezes a família precisa de cesta básica, tem que ser encaminhada para algum programa de ajuda do governo, a criança precisa ir para o PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil), a mãe precisa de um curso profissionalizante. Muitas vezes as crianças precisam trabalhar ou ficam sozinhas cuidando da casa e dos irmãos menores correndo risco de se acidentar. Em Silvânia a violência acontece também porque os pais são alcoólatras e se descontrolam.

 

JJ: Quais são as estatísticas da violência doméstica em Silvânia?

É um número difícil de precisar. Existem muitos casos que não são denunciados por medo. A própria mãe muitas vezes não denuncia tentando proteger a criança, ou por receio de denunciar o companheiro. Muitas vezes são padrastos que cometem a violência e não são denunciados porque são eles que sustentam a família.

 

JJ: Como a sociedade enxerga essas crianças e o trabalho realizado pelo CREAS?

Muitas pessoas não conhecem o trabalho. E muitas também não entendem o que as crianças sentem, acham que é besteira porque infelizmente é uma situação recorrente no Brasil, mas se elas não forem tratadas serão futuros abusadores, terão uma vida difícil, desequilibrada, presa ao que aconteceu.

 

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