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Morreu? Calma você supera

Giuliane Alves

O sol nem nasceu direito e o relógio desperta, com bastante moleza desligo aquele barulho irritante e ligo o soneca, sem muita demora aquele barulho irritante toca outra vez, eu pulo da cama, tomo banho, escovo os dentes, escolho uma roupa qualquer, calço as sandálias, saio de casa. No meio da escadaria me lembro que não peguei a chave e muito menos tranquei a casa, volto correndo subindo a escada de dois em dois degraus, abro a porta procuro a chave. Tiro tudo de cima do sofá, reviro a cama, desordeno mais ainda o guarda-roupa, apelo para o banheiro e finamente lembro que a chave está no gancho de pendurar chaves.

Pego a bendita, tranco a casa, desço as escadas correndo, caminho pela calçada e percebo o ônibus se aproximando, corro em direção a ele e me jogo na frente daquela máquina enfurecida, o motorista freia bruscamente e sem paciência abre a porta. Ofegante entro, agradeço a boa ação do motorista e passo na roleta. De longe avisto um único lugar vazio: o banco de gestantes. Com passos largos e brutos me aproximo do local, assim como um gato se aproxima de um aquário.

Olho para os lados nenhuma mulher com barriga aparentemente grande que eventualmente possa ser uma grávida, sem peso na consciência me sento e me aconchego. Segundos depois, pego no sono e quando acordo me deparo com inúmeras pessoas olhando pra mim com expressão de revolta, devido ao banco que eu estava. Sem precisar de palavras me levanto e tento ir para o fundão.

Me esfrego sem ser da minha vontade, em quase todo mundo do ônibus, deixo metade do meu cabelo nas pessoas e flutuo como uma pena para não pisar no pé de ninguém. Finalmente chego ao final daquela interessante máquina. Imaginei que a vida louca tinha acabado ali, mas não. Ao tentar me encaixar em um centímetro quadrado qualquer escuto duas senhoras se cumprimentando.

-Oi Dona Divina quanto tempo!

-Oi Dona Maria, é verdade né faz uns três meses que não nos vemos.

Não sou do tipo de pessoa que faço questão de escutar a conversa dos outros, mas existem alguns diálogos que são inevitáveis e aquele me parecia ser algo rotineiro, não muito interessante. Então continuei na minha posição olhando para a janela. E elas prosseguiram:

-E aí como está o seu irmão, ele se casou né?

-Uai ficou sabendo não?

-Não! O que aconteceu?

-Ele morreu!

-Morreu?

-Pois é infelizmente infartou quando o filho dele nasceu, foi tanta alegria que não aguentou.

-Nossa meus pêsames pelo seu irmão e meus parabéns pelo seu sobrinho! Mas e seu novo genro, está se dando bem com ele?

- Assim com meu genro...na verdade não.

-Não? Por quê?

-Porque ele morreu.

-Morreu?

-Pois é também morreu coitado. Ele estava voltando do serviço de moto com muita pressa para buscar minha filha na faculdade, aí furou o sinaleiro e um caminhão pegou ele em cheio. Não sobrou nenhuma tripa pra contar história.

-Meu Deus que horror!

Naquele exato momento eu e metade do ônibus já olhávamos para aquela mulher muito assustados. Ela falava sem sentir nenhum mísero sentimento pelos seus parentes, nem desprezo, nem amor, muito menos dó. Eu não sabia o que me espantava mais se eram aquelas trágicas e terríveis histórias ou se era a omissão de sentimentos dela. Não era frieza, era a normalidade de como ela tratava a morte. Mas a conversa não terminava no genro:

-Mas Dona Divina vamos falar de coisa boa! Você me mandou o convite do seu casamento, que infelizmente eu não pude ir. Como foi matrimônio? E a lua de mel?

-Ê Dona Maria estou vendo que esses três meses afastadas não nos fizeram bem, a senhora está muito desatualizada. Não ficou sabendo do meu quase marido?

-Quase marido? Não! O que foi dessa vez?

-Ah menina, um dia antes do casamento ele foi na roça pra matar a vaca que era o Buffet da nossa festa e quando voltava para a cidade a caminhonete que ele estava, desviou de uma paca na estrada e caiu num barranco, morte na certa!

-MEU DEUS DO CÉU, DONA DIVINA! Que zinca é essa, que histórias são essas? Tem alguém vivo na sua família?

Agora sim todos do ônibus focaram suas atenções no diálogo das duas senhoras. O meu espanto tinha se convertido em gargalhada interna, não que eu seja insensível, mas eu nunca havia escutado uma pessoa contar histórias tão íntimas num tom tão público. Era incrível como todo mundo queria fazer um comentário, porém não tinha coragem. E assim continuamos a prestar atenção na conversa, agora sim era inevitável!

- A Dona Maria tem gente viva sim! Meus filhos, minha mãe de 108 anos e mais uns parentes por aí.

-Ah que bom né! E seus filhos o que pensam desses seus quase maridos?

-Na verdade eles nem se preocupam mais, porque este foi o sétimo que morreu.

Eu não agüentei e falei:

-SÉTIMO? E a Senhora ainda chama Divina? Deus me livre! Se eu ficar mais um segundo nesse ônibus quem vai morrer é a gente. Não tem como ficar perto da Senhora! Motorista abre essa porta!

De repente um silêncio constrangedor, ao mesmo tempo que todos queriam me aplaudir, queriam me matar, pois eu finalizei aquela conversa anormal. Meu ponto de descer ainda estava distante, mas não seria uma má ideia sair dali. E para quebrar o gelo, o ônibus fez uma curva estilo montanha russa todo mundo saiu do lugar, fechou os olhos e gritou. 2 segundos depois de achar que tinha passado daquela pra uma melhor a porta do alívio abriu. Ufa. Não era o paraíso, mas tinha descido do pesadelo.



Fonte : Facomb

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