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Manifestações

Cão que ladra agora morde

O brasileiro que mal opinava, agora resolveu agir

Por Jéssica Alencar


O título para este texto era outro: “Cão que (quando) ladra não morde”. Apesar de pejorativa a alusão, um “ser-não-humano” é como eu me sinto ao depender o mínimo que seja do transporte público. A lei da selva começa ao entrar em um ônibus ou metrô, se você consegue passar por esta etapa, precisa resistir ainda a prova de quem se mantêm mais tempo em pé.

É praticamente um teste de paciência, ficar apertado, amassado, suado, atrasado. Não é preciso nem citar o caso dos idosos ou deficientes físicos, muito menos sobre o preço da passagem, sobre a educação (ou melhor, a falta dela) de muitos motoristas ou passageiros, basta citar o desrespeito.

Desrespeito é o que anda movendo nosso país. Bem, mas para quem ainda está se perguntando sobre o título e o ex-quase título deste texto, eu explico. Sempre me indignei com o silêncio diante da corrupção, do famoso jeitinho brasileiro, do custo alto de vida, da precaríssima saúde e educação, do silêncio diante do pedido errado, da fila longa, do baixo salário, do trânsito caótico.

Sair de casa é uma indignação constante e quem reclama demais, quem tenta exigir seus direitos enquanto consumidor, cidadão, estudante, trabalhador ou humano é chato, é cricri. O discurso é sempre o mesmo, “ No Brasil é assim mesmo, todo politico é corrupto, reclamar dá mais dor de cabeça, deixa isso pra lá, pra que brigar só por causa disto? Daí o ex-título. Mas agradeço a falta de tempo, a doida rotina da vida moderna. Deu tempo pra mudar o título, dá tempo pra mudar o Brasil. Pra que brigar só por R$ 0,20?

Desta vez eu não respondo sozinha, se sou chata tem milhares de pessoas comigo nessa, inclusive as que sempre me tacharam assim. Tem gente com idade, sem idade, com estudo, sem estudo, com dinheiro, sem dinheiro, com carro, sem carro. Tem gente que sempre lutou, tem gente que acorda agora, tem gente que nem sabe o porquê, mas está na rua. Tem gente não só reclamando, mas agindo. Tem gente não pedindo, mas exigindo, exigindo explicação, exigindo uma vida digna, exigindo o que é seu por direito.

Pipocou no Brasil e fora dele, daí a “grande” mídia denominava de farra, um violento valia por milhares em busca de paz, mas acontece que o Brasil despertou e a mídia não pôde mais utilizar do seu discurso e ele “mudou”. Agora é um pequeno grupo que se desvirtuou e blá, blá, blá, todo “mundo” falando que não representava o Brasil, que não podia focar nesta minoria e etc.

Mas aí caros, tenho que discordar em partes. Infelizmente, esses grupos, “representam” nosso país atual, eles são a cara da falta. Falta de educação, falta de respeito, falta de saúde, falta de tudo e mesmo que toda falta não justifique os atos de vandalismo, é por eles também que estamos indo às ruas, é em busca de um país mais justo, mais digno, mais educado com mais bom-senso, bom-senso da parte dos “poderosos”, dos vândalos, da mídia, da polícia...

Bom-senso Brasil, porque não quero ser cão, nem ladrar, nem morder, quero ter o direito de reivindicar, de lutar e de mudar.

Categorias : Opinião

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