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manifestação

Nossa primavera chegou

 

O aumento da passagem foi apenas a gota d'água que faltava para despertar o gigante

 

Por Lídia Cunha

 

Nesta semana, a presidente Dilma Roussef se reuniu com ministros de governo, com o ex-presidente Lula e com especialistas em uma super-tarefa para lidar com esse fenômeno histórico das manifestações do povo brasileiro. Dos encontros surgiram as primeiras medidas: um projeto de lei que torne a corrupção crime hediondo, a realização de um plebiscito para reforma política, destinação de 100% dos royalties do petróleo e 50% dos recursos do pré-sal para a educação, dentre outras. Já é um avanço, mas isso não vai nos calar. Aliás, nada mais pode nos calar.

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A corrupção anda de braços dados com a política. E acredito que a Dilma pegou o bonde andando, subiu alegremente mas logo viu que não seria tão fácil governar um país tão impregnado de corrupção. Mas ela se mostrou um pouco diferente de seu antecessor. Ao invés de empurrar a sujeira para debaixo do tapete, só no começo do seu governo ela demitiu 7 ministros por corrupção, a maioria herdada do governo Lula. Ela conseguiu sair ilesa e ainda com fama de presidente-faxineira. Mas foi preciso explodirem manifestações de ponta a ponta no Brasil, para que o governo começasse a agir com racionalidade.


O Brasil, depois de duas décadas calado, amuado, conformado, vislumbrado, finalmente despertou do seu estado letárgico passivo. O interessante é que as manifestações que ocorriam no Brasil, após a redemocratização, na maioria das vezes eram promovidas pela esquerda e se resumiam basicamente no movimento dos sem terra. Mas tão logo a esquerda subiu ao poder, as manifestações populares perderam força. E a “oposição” ao governo petista, se é que existiu, seguiu assistindo calada aos devaneios petistas. Nem o maior escândalo petista da história, o mensalão, impediu a reeleição do Lula e depois a eleição de Dilma.


Depois do mensalão veio uma escalada de escândalos, licitações fraudulentas com a empresa Delta, desvio de verbas em diversos setores como Saúde e Educação, a farra da quadrilha do Cachoeira, inclusive com o envolvimento de um dos senadores até então mais respeitados, Demóstenes Torres. E, apesar de tudo, o brasileiro continuou calado, esperando que a mudança chegasse sozinha, sem povo, sem voz. Até que veio o estopim, a gota d'água que faltava, o aumento da passagem de ônibus em várias cidades do País. Parece que chegou a vez de o Brasil sentir quão bom é a estação da primavera.


Como sempre, foram nossos jovens estudantes que iniciaram os protestos. Mas desta vez eles não estão sozinhos, milhões de brasileiros indignados, furiosos, revoltados, aderiram às manifestações. Como diria Lula, nunca na história deste País tanta gente saiu às ruas. Esses são os filhos dos caras pintadas que saíram do conforto do facebook e ocuparam as ruas, os órgãos públicos, prefeituras, assembleias legislativas, Congresso Nacional. Já não são mais os míseros centavos acrescidos à passagem de ônibus que importam. Agora é questão de honra mudar o País. Crescemos. Não admitimos mais que a corrupção assole o Brasil, ao custo do sucateamento da educação, da saúde, da segurança, do transporte público e da miséria de milhares de brasileiros.


O que vai ser de agora para frente não sabemos, ainda é cedo para prever. Mas queremos mudança. Vamos esperar. Não sentados, mas nas ruas e nas redes sociais, protestando, discutindo o que queremos para nosso País. A presidente já sinalizou algumas mudanças, mas de toda forma vamos desconfiar. Não esqueçamos da velha lição de Marx: “Todo produto traz em si os vestígios, as marcas do sistema que o engendrou”. Essa é a chance de ouro que a Dilma tem de continuar no poder, ou melhor, de deixarmos que ela continue no poder. Porque o poder é nosso. Isso está na Constituição, “todo poder emana do povo, que o exerce através dos representantes eleitos”. Enquanto não chega a hora de escolher novos representantes, não vamos nos calar. O gigante acordou, e parece não querer dormir tão cedo.

Fonte : Facomb

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