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PICHAÇÃO

Do crime à arte

Gangues de pichadores desafiam às leis e a polícia, revoltam a população e se tornam os grandes vilões da poluição visual na capital

Murilo Nascente

É impossível andar pelas ruas de Goiânia e não se incomodar com os outdoors, os painéis eletrônicos e principalmente com elas, as pichações. A combinação desses fatores torna quase caótico o cenário visual da cidade. Dentre eles, o problema mais grave, sem dúvida, é a pichação. O ato de rabiscar muros e paredes é considerado vandalismo e crime ambiental de acordo com o artigo 65 da Lei 9.605/98, porém, não vem sendo tratado com a devida atenção. O Coronel da Polícia Militar do Estado de Goiás, Marcílio Queiroz, expõe a situação: “Infelizmente a polícia fica com as mãos atadas quanto a isso. Nós da PM não acompanhamos esse caso; é responsabilidade da Delegacia Estadual de crimes contra o Meio Ambiente (Dema). “Quando pegamos alguém em flagrante, devemos prontamente repassar o caso para a Dema.”

Além desse fato, a punição prevista para quem depredar ou degradar de alguma maneira edificações ou monumentos urbanos é detenção de três meses a um ano e mais aplicação de multa. No entanto, os juízes estão optando por penas alternativas, como fornecimento de cestas básicas ou prestação de serviços à comunidade. Segundo a ex- delegada do Meio Ambiente Lara Menezes Melo, quando os pichadores são menores de idade, eles têm uma punição ainda mais leve, devendo apenas reparar os danos causados.

Os envolvidos com a pichação, em grande maioria, são membros de gangues, que por meio dos rabiscos e assinaturas demarcam território e impõem poder. Na falta de educação e oportunidade, esses jovens buscam na arte proibida uma maneira de se tornarem conhecidos e respeitados. A antropóloga Maria Luiza Rodrigues Sousa, especialista em etnografia e problemas urbanos, comenta que a pressão social que cai sobre os jovens é bem maior do que a necessidade de ser conhecido. Eles também são pressionados e influenciados pelo meio em que vivem, e acabam formando uma sociedade paralela com regras e consensos. “Há regras a serem seguidas e respeitadas pelos diversos grupos que picham. Se essas regras forem quebradas, existem punições específicas e legitimadas por esses grupos”, expõe a antropóloga.

Conflito

Na hora de pichar não há limites. Os prédios altos e monumentos importantes se tornam os grandes troféus dos pichadores. Porém, os muros de casas e lojas também não são respeitados. O comerciante Eurismar da Fonseca já foi vítima desse vandalismo três vezes e diz que nunca procurou a polícia. “Nem tento denunciar à polícia. Sei que não vai adiantar nada e até já espero chegar para abrir a loja e ver meu muro todo pichado de novo.” De acordo com ele, os pichadores não tem respeito pelo patrimônio alheio e muito menos pelo público. “É triste andar pela cidade e ver as praças estragadas, bancos e estátuas pichadas. Já é difícil o governo construir lugares assim. Quando constroem os vândalos ainda estragam. A gente acaba ficando refém dessa situação”, comenta.

Arte                                                                                                                                      

O grafite surgiu como grande alternativa para esse problema. Ao contrário da pichação, esse tipo de pintura em muros e paredes é totalmente legalizado e inclusive considerado uma arte. Acostumada a fazer duras críticas sociais em suas representações, a arte nasceu da pichação, e hoje ajuda transformar a realidade de muitos ex- pichadores.

Porém, o dia a dia do grafite ainda é bastante complicado. Trabalhando com grafite há seis anos, Luiz Henrique Almeida conta que ainda há muito preconceito. Para ele as pessoas não conseguem diferenciar o papel do grafiteiro e do pichador e até por isso falta muito incentivo, especialmente o financeiro. “O grafite está intimamente ligado com a cultura e o dia a dia das favelas, das periferias. É uma arte de denúncia e é claro que isso atrapalha a trazer investimentos. Muitos não querem ver a verdade, e até por isso julgam a grafitagem como crime. Além de tudo, ela enfeita os muros, traz alegria e beleza. Tem também o papel de conscientizar e formar os jovens que poderiam se tornar pichadores e até mesmo os que já foram.” Comenta também Luiz.

Há mais de um ano, a prefeitura iniciou o projeto esporte e cidadania, que abrangem também essa problemática e transforma pichadores em grafiteiros oferecendo oficinas e cursos. E os resultados da iniciativa já começaram a aparecer. De acordo com dados fornecidos pela Delegacia Estadual de Crimes Contra o Meio Ambiente no ano passado foram detidos cerca de 250 jovens envolvidos com a pichação. Neste ano, as informações da delegacia revelaram que os incidentes acontecidos até este mês indicam que 2012 terminará com um número bem menor em relação ao ano passado.

 

Fonte : Facomb

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