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Aceitar os cachos é um ato político

Em terra de chapinha, quem tem cachos é rainha

Cansadas da ditadura do cabelo liso, mulheres se unem nas redes sociais para trocar experiências e incentivar a autoaceitação dos crespos

Meu cabelo sou eu”, relata a educadora Joanna Guerra. Ela faz parte do grupo Amigas Cacheadas no Facebook e assumiu o seu cabelo crespo em 2009. Aceitar os cachos, para muitas garotas – brancas ou negras –, é uma questão de identidade, de assumir suas raízes e ter orgulho delas. “Vejo o meu cabelo como minha marca registrada, é uma parte de mim, sem ele eu não seria tão eu”, brinca a estudante Gianna Froeming.

 

A blogueira Lola Aronivich, do blog Escreva Lola Escreva, publicou que aceitar o cabelo natural, além de ser uma questão pessoal, é também um ato político. Na mídia e nas ruas, observamos a ditadura do cabelo liso ou alisado. Durante muito tempo, e ainda hoje, o liso era considerado “bom” e “arrumado”, e o crespo “ruim”. Assumir os cabelos como eles são, com suas características naturais, é quebrar e desconstruir esse padrão imposto. A frase Em terra de chapinha, quem tem cachos é rainha, utilizada por muitas meninas, mostra um pouco dessa revolução.

O preconceito e o racismo velado reside nessas convenções de beleza, com a ideia de que o cabelo afro ou cacheado é ruim. Não são raras as vezes que mulheres têm cabelos cacheados passam por algum tipo de constrangimento. “Na escola, me chamavam de bombril. Isso me colocava muito para baixo, eu me sentia feia. Comecei alisar meu cabelo muito cedo, logo percebi que eu tinha preconceito com meu próprio cabelo”, conta a estudante Priscilla Mattos.

 

Em 2011, acompanhamos o caso da estagiária Ester Cesário, que trabalhava em um colégio na Zona Sul de São Paulo, onde pediram para que alisasse os cabelos crespos para manter uma “boa aparência”. Daiane Campos é psicóloga e conta que já passou por uma situação parecida. “Uma paciente que me procurou, após indicação de outra paciente, não prosseguiu em terapia comigo, pois acreditava que eu era uma retrógrada e relaxada por não ter feito uma progressiva”, conta ela.

 

Nas redes sociais

No Brasil e no mundo, surgiu um movimento de volta ao cabelo natural e, pouco a pouco, mais meninas vêm aderindo a ele. As redes sociais como o Facebook, blogs e Youtube exercem um grande papel dentro desse processo de autoaceitação. No Facebook, o grupo secreto Amigas Cacheadas reúne cerca de 6.800 membros e conta com post e publicações diárias.

 

No grupo, as meninas dão dicas de cuidados, colocam fotos, vídeos, trocam experiências, relatam situações que já viveram e incentiva umas às outras a voltar ao cabelo natural, além de apoiar quem está passando pela transição (dos cabelos lisos para os enrolados). “Ele contribuem para que as pessoas se percebam e se valorizem. Além disso, gera um sentimento de pertencimento muito grande”, explica Daiane Campos.

 

Acho que esses grupos são extremamente importantes, pois ajudam muitas meninas que se sentem inseguras com seus cabelos naturais. Ali temos apoio e conselhos de quais os produtos certos a serem usados”, conta Maria Rita, estudante de Jornalismo da UFG. Além dos grupos, há páginas no Facebook que incentivam a volta aos cabelos naturais como o Parei de usar chapinha e o Chiquinha, que publica tirinhas intituladas A Kindumba da Ana.

 

No Youtube, o movimento cacheado também é grande. Rayza Nicácio é defensora da identidade original dos cabelos e tem um canal no Youtube com mais de 20 mil inscritos. O seu primeiro vídeo foi publicado em 2012 e tem quase 118 mil visualizações. Desde então, publica vídeos semanais sobre o assunto, ensinando como cuidar dos cabelos e dicas de penteados. Além dela, muitas cacheadas assumidas colocam vídeos na rede, relatando suas experiências, seu processo de aceitação e dicas.

 

Veja vídeos no Youtube com a "TAG: Assumindo o cabelo crespo", onde meninas contam suas histórias.


Por Nathália Barros

Fonte : Facomb

Categorias : Comportamento

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