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Era uma vez uma menina que caminhava por uma calçada escura

Murillo Velasco

Todo mundo já sonhou ser “alguém na vida”. Médico, veterinário, astronauta, escritor. Mais do que um sonho, desejar “ser alguém” representa um sentimento íntimo do ser humano. Quando sonhamos estar encarnados numa profissão, estamos sendo chamados a vivê-la. É o que se tem por vocação. O desejo de ser é tão grande quanto o de fazer.

Com múltiplas janelas abertas no computador, e na mente, dois textos chamavam atenção. O primeiro era uma notícia de um grande veículo de comunicação. Em época de vestibular, o que não falta é personagem. É gente sofrida passando em primeiro lugar de curso concorrido. Menino prodígio aprovado em uma dezena de faculdades. É notícia a se perder de vista. Mas esta era diferente: “Garota perde vestibular e se descobre médica”.

O segundo, um texto de uma influente jornalista gaúcha, em sua página na rede social. Ambos escondiam (ou revelavam) um segredo: a descoberta da profissão. Ambos em situações embaraçosas: o medo da exposição e o baque da decepção. Ambos traziam como protagonista uma menina chamada Ana.

Ana Luiza chegou atrasada ao portão do local onde realizaria provas para engenharia civil e não pode realizá-las. Voltava para casa em um ônibus. Um acidente surpreendeu a viagem. Um capotamento. A mineira de 17 anos realizou os primeiros socorros de alguns dos passageiros e salvou-lhes a vida. Ana sentiu um prazer tão grande no “fazer”, que mudou sua escolha. Sentiu nascida para salvar vidas, descobriu a médica interior. Era a vocação aflorada.

Às vezes precisamos de uma sacudida para acordarmos para aquilo que gostamos. Um acidente talvez seja a mais severa. Mas a descoberta pode vir doce. A vocação vem também precoce, iniciada com um simples “Era uma vez...”.

Foi assim que a segunda Ana, Ana Raquel, uma gauchinha em seus 11 pra 12 anos ouviu o chamado. Diante da necessidade de escrever um “era uma vez”, ela imaginou, sentiu medo, mas não titubeou. Como jornalista que viria a ser, já sabia lidar com a última hora. Deixou para a véspera. Imaginou, escreveu e entregou.

Semanas depois a professora devolveu o texto de todos da turma, dando destaque para o que começava com "era uma vez uma menina que caminhava por uma calçada escura..." Era o da Ana, que aceitou o convite. Não só da vida, mas da professora que disse, em alto e bom som: “tens o dom pra escrita, Ana Raquel, vais ser jornalista.”

Vocação vem do latim “vocare”, que significa “chamado”. Quando despertamos nossa vocação somos chamados a fazê-la. A história das duas “Anas” nos mostra algumas nuances da descoberta vocacional. A descoberta da profissão pode vir cedo ou tarde, no êxito ou na decepção de um caminho trilhado errado. A descoberta está na luz de uma menina que caminhava por uma calçada escura e não sabia pra onde ir.

Fonte : Facomb

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