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Exibição do longa "Trabalhar Cansa", foto de Kettlyn Fernandes

Cinema a céu aberto

Não é só a saneamento básico que a população tem direito

 

 

   Pietro Bottura

O cinema é um templo de cultura, história e entretenimento. Desde sua invenção, no início do século XX, a sétima arte tem sido foco de estudos, desculpa para encontros de casais e opção de lazer. É difícil imaginar, nos dias presentes, um brasileiro que nunca tenha visto um filme. Mais do que passatempo, entretanto, o cinema não apenas retrata a realidade como também a transforma. É nos filmes que se aprende a beijar de forma romanesca, que se toma gosto pela ação, pela ficção, pela denúncia social. Muito do preto e do branco, do certo e do errado que criamos para nosso juízo vem do cinema e de seus heróis literários.

O custo dessa maravilha cultural, entretanto, nem sempre é acessível a todos. E, da mesma forma, há poucas ofertas além do circuito comercial cinematográfico dos grandes shoppings da capital. Diante da ideia de que cinema deve ser discutido, coletivizado, popularizado, o Coletivo CineCultura – Associação dos amigos do CineCultura propôs, em torno de Julho de 2012, o projeto CineAlmofada, que consiste na exibição de filmes fora do circuito hollywoodiano ao ar livre e gratuitamente, na Praça Cívica. As duas primeiras edições bateram a marca de 400 participantes, número que mostra o interesse dos espectadores pela iniciativa.

O abandono do Estado

A escolha do local se deu como uma forma de protesto pacífica, já que as sessões são ministradas em frente ao CineCultura, que dá nome ao coletivo, sala de exibição popular desativada no ano passado por sucateamento, um problema que também assombra outros centros culturais goianos, como Centro Cultural Oscar Niemeyer ou o Martim Cererê.

Assim, ainda que não haja sala para exibição, o intuito dos amigos do CineCultura é proporcionar a entrada do mundo cinematográfico a quem queira vê-lo, e não apenas a quem possa pagar. Algo que também justifica a escolha por filmes franceses, italianos, alemães, nacionais; a cada mês são escolhidos dois curadores, que, em rodízio, propõem filmes que achem interessantes para essa proposta de exibição. Ou, como na curta apresentação de sua página do Facebook, “Simplicidade. Espontaneidade. Leve sua almofada e seu lanchinho. Filmes ao ar livre na Praça Cívica, em frente ao Centro Cultural Marietta Telles Machado (onde fica o Cine Cultura)”. 

Esse tipo de projeto, popularizado na década de 60 e costumeiro em cidades como Buenos Aires e Paris, tem conquistado o público e dado visibilidade ao Coletivo. A proposta inicial, entretanto, ainda se mantém sem conclusão: os amigos do CineCultura querem utilizar do espaço para a criação de um centro de apreciação cinematográfica gratuito e acessível, e o CineAlmofada é, inicialmente, apenas uma forma de lembrar a existência do tão querido cinema popular da Praça Cívica e colocar em pauta a necessidade de sua reutilização.

E o que os amigos do CineCultura querem?

Assim, não apenas há uma iniciativa social como também uma base de proposta: os filmes exibidos devem gerar reflexão, serem interessantes a quem tiver uma almofada e curiosidade o suficiente, fugindo do conceito de que explosões e efeitos especiais são sinônimo de boa produção. Polly Di, vice-presidente da associação, nos conta os objetivos do Coletivo: “O CineCultura é conhecido pela programação alternativa, é um cinema de rua, diferente dos outros cinemas da capital. Quando a Marcela Borela assumiu a direção, antes dele fechar para a reforma, houve a Sessão Vitrine, que trabalhava justamente com cinematografia brasileira atual, com filmes que passaram por festivais, por exemplo".

Continua: "Essa Sessão Vitrine é a cara do CineCultura e foi um sucesso. Uma outra proposta de programação feita pela Fabíola Morais é o CineAlmofada. É a projeção de filmes no lado externo do cinema, é uma saída amorosa diante da crise. O esforço é viabilizar a reabertura do Cinema, e enquanto isso não acontece, o Coletivo, que nasceu de uma aproximação amorosa e espontânea pelo Cinema, pretende ajudar no que for preciso. É o que chamamos de cineamor, cinepensamento, cinecoletivo”.

Atenção merecida

A iniciativa ousada foi reconhecida pelo Estado e o projeto CineAlmofada ganhou o título de Destaque Cultural do Ano de 2012 antes de completar seis meses de existência, reconhecimento que, espera-se, traga consigo a iniciativa para a revitalização do CineCultura, onde os filmes poderão ser exibidos, ainda gratuitamente, com um pouco mais de conforto. 

Em janeiro, o diretor escolhido para exibição pelos curadores Henrique Borela e Sophia Pinheiro é Leo Carax, cineasta francês que dirigiu, entre outros títulos, Boy Meet Girls (1984), Sangue Ruim (1986) e Os amantes da ponte de Neuf (1991).


Fonte : Facomb

Categorias : Cultura

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