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Histórias de gente grande

Os contos de fadas muitas vezes não são levados a sérios pelos pais que os acham fantasiosos demais ou senão violentos. O que esses pais não sabem é que essas histórias milenares trazem valores fundamentais para o desenvolvimento da criança. 

 

 

Por José Abrão

Aparentemente maniqueístas e superficiais, os contos de fadas vão muito mais além, tratando de assuntos como complexos edipianos, agressividade, independência e maturidade de forma tão sensível que muitos pais falham em enxerga-los assim até hoje. “O bom disso tudo é que existe uma força maior na figura do herói que sempre irá triunfar no final, não importa o quanto árduo tenha sido o seu caminho percorrido”, conta Mirian Fidelis Guimarães, em seu artigo A Importância dos Contos de Fadas na Personalidade Infantil.

Muitos pais julgam os contos como fantasiosos, o que eles acham um ponto negativo em relação ao mundo real e terrível. Maria Alberta Menerès em um trecho do seu livro Imaginação, escreve um capítulo sobre esses contos e diz: “O conto de fadas não informa sobre questões do mundo exterior (realidade), mas sim sobre processos interiores que ocorrem no âmago do sentir e do pensar”.

Ou seja, a criança tem uma ampla capacidade de absorver os símbolos e ensinamentos dos contos de fadas e aplicá-los à sua vida. Bruno Bettelheim escreveu um dos livros mais importantes sobre o assunto, A Psicanálise dos Contos de Fadas. Nele, ao tratar sobre Cinderela, ele conta o caso de um garotinha de 5 anos que, se sentindo enciumada e prejudicada pelas irmãs mais velhas, começou a varrer o chão, a não se vestir direito e a não querer tomar banho, como se fosse a própria Cinderela. Ela, sozinha, pôde fazer todo o processo de identificação com a personagem para chamar a atenção dos pais e resolver o seu problema.

“Contar histórias é uma atividade privilegiada na transmissão de conhecimento e valores humanos” conta a psicóloga e professora de literatura infantil Isabel Maria de Carvalho Vieira em artigo escrito para a revista Criança nº 38, do Ministério da Educação e Cultura (MEC). “Estamos do lado daqueles que são a favor dos contos de fadas, que acreditam no valor e na verdade que se revelam nessas histórias arcaicas, na força e na coragem que podem surgir, exatamente, pelo impacto do encontro direto com a fraqueza, o desamparo, o medo, a necessidade de luta para alcançarmos nossos objetivos”, completa.

Para Bruno Bettelheim, eles são tão importantes por terem um efeito terapêutico nas crianças, que usam essas histórias para resolverem suas próprias dúvidas e problemas. Pais e educadores temem os contos por os julgar primitivos, mas talvez seja por serem tão simples e por terem sido recontados milhares de vezes que estes contos foram lapidados a ponto de se tornarem o que são hoje.

 Violência

Além da questão “contos de fadas são fantasiosos demais”, outros pais temem esses contos por causa da violência e da negatividade. Em uma geração apegada ao politicamente correto, contos recheados de canibalismo, bruxaria, assassinato e alusões a estupro e a sexo parecem mostrar muito cedo um mundo ruim para as crianças, ainda sem maturidade para entender as mazelas do mundo.

Mas aí que esses pais se encontram errados novamente. O papel do herói que vence todo e qualquer mal é o ponto principal nessas histórias e é com ele que a criança se identifica, mas, para se tornar o herói ele passa por sérias provações. Ele mata o dragão, ele perde os pais, ele é enfeitiçado por uma bruxa má e assim por diante. A criança entende essas provações. Ela entende que há maldade no mundo e que, para se dar bem na vida – ser o herói, ser o rei, ficar com a princesa – é necessário sair de casa – sua zona de conforto – e enfrentar os dragões da vida.

A outra razão é que as crianças não são os globos de inocência que muitos pais gostam de acreditar. Desde os estudos de Piaget, foi comprovado que emocionalmente, crianças são instáveis como vulcões, podendo sentir ódio profundo além de possuir desejos assassinos e violentos, como toda pessoa normal.

Bettelheim narra em outro momento uma passagem em que uma criança que era totalmente protegida desse mundo violento dentro de casa começou a se tornar extremamente violenta com animais e agressiva com pessoas. O motivo é que, ao ter esses pensamentos ruins, não lhe foi dada nenhuma forma de extravasar e pior: foi-lhe ensinada que ter esses pensamentos era ruim, então ela também ficava deprimida ao se julgar, logicamente, uma pessoa má.

Portanto, o contato com as vilanias dos contos de fadas nada mais é que saudável, permitindo inclusive que a criança imagine cenas terríveis, como a morte do lobo mal ou da madrasta da Branca de Neve. Esse tipo de violência também é importante para o senso de justiça em desenvolvimento da criança. Ela não entende os conceitos de lei e ordem, mas julga justo que uma rainha má que tentou matar a heroína seja morta como punição.

Fonte : Facomb

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