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“As mulheres ainda são impedidas de coisas elementares, como ir e vir em paz”

Mariana Lopes Barbosa, Mestre em História pela Universidade Federal de Goiás e membro da comissão organizadora da Marcha das Vadias em Goiânia, explica o que é o movimento e fala das dificuldades e dos preconceitos enfrentados pelas mulheres em pleno século XXI. A próxima marcha em Goiânia está marcada para o dia 07 de julho de 2012.

Por Myla Alves

Jovens Jornalistas: Como surgiu o movimento da Marcha das Vadias?

Mariana: A Marcha das Vadias é um movimento mundial. O mote inicial deste foi em Toronto, Canadá, quando um policial, dando uma palestra em uma universidade, afirmou que se as mulheres queriam evitar estupros deveriam parar de se vestir como vadias, de forma provocante. A indignação das mulheres de lá foi divulgada e entendida por outros movimentos de mulheres em todo o mundo e daí, então, surgiu a Marcha das Vadias, porque se ser vadia é andar com a roupa que queremos, somos, sim, todas vadias, porque somos todas livres.

 

JJ.: Esta não é a primeira vez que a Marcha é realizada em Goiás? Como foram os outros movimentos?

M.: Em Goiás tivemos duas Marchas das Vadias no ano passado, uma durante o FICA (Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental) na cidade de Goiás e outra na UFG, durante a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).

 

JJ.: Qual a expectativa de público para esta terceira marcha?

M.: No evento da Marcha no Facebook já temos, até agora (19/06/2012), 1033 pessoas confirmadas (!). Sabemos que nem todo mundo vai mesmo, mas, se for pelo menos metade, já é maravilhoso!

 

JJ.: Você acha que o movimento sofre muito preconceito por parte da sociedade?

M.:  Ah, acho que sim, infelizmente. Mulher sofre preconceito na sociedade, sempre. Qualquer mulher já foi chamada de vadia no trabalho, na escola ou em qualquer outra relação social porque em algum momento não correspondeu às expectativas machistas da sociedade. Na divulgação que estamos fazendo da Marcha desse ano já ouvimos muita besteira, muita coisa ofensiva de pessoas que nem procuram saber do que se trata, mas já pensam logo em criticar, fazer chacota, etc.

JJ.:  Quais as principais bandeiras defendidas pelo movimento?

M.: O feminismo que defendemos é a luta diária por direitos das mulheres, é a defesa incansável de que as mulheres são livres e iguais, é a luta para que o machismo pare de nos matar.

 

JJ.:  E a questão do estupro? Como é a posição do movimento em relação ao tema?

M.:  Se lembrarmos que o mote inicial de todo o movimento da Marcha das Vadias tem a ver com opiniões infundadas sobre estupro, veremos que este é tema recorrente não só na Marcha, mas em demais movimentos feministas e de mulheres em todo o mundo. Esta é uma questão difícil e dolorida de se tocar e, infelizmente, o que temos visto são humoristas achando que estupro é piada, como o Rafinha Bastos há algum tempo. Vemos também advogados de Goiás culpando as mulheres, assim como o policial de Toronto, por esse crime. Ou seja, a mulher, além de vítima, ainda é culpada? Não há como ser mais absurdo afirmar isso!
Na semana passada recebemos a denúncia de um texto publicado num jornal local com o título "Marcha das Vadias e o crime precipitado pela vítima", onde um advogado membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB/GO defende que a mulher é culpada pelo crime de estupro. Em suas palavras que ela vem desempenhando "um papel de incitador da violência contra si mesmo, contribuindo com a ação do criminoso, seja pela inspiração ou facilitação do crime. Desta forma, a vítima é sujeito ativo no crime perpetrado contra ela própria. Ela é partícipe e desenvolve forte influência para a realização do evento criminoso." Diante de uma declaração dessa, proferida por um advogado que diz defender os direitos humanos, ainda paira dúvida quanto à importância da luta diária contra o machismo? 

 

JJ.:  Você acha que as pessoas ainda têm muito o que aprender em relação ao respeito à liberdade feminina? E você acredita que isso é possível?

M.: Com certeza! No Brasil, aproximadamente 15 mil mulheres são estupradas por ano, os salários são desiguais, há muita violência doméstica, mulheres são ofendidas e abusadas indo e voltando do trabalho dentro do transporte público, etc. As mulheres ainda são impedidas de coisas elementares, como ir e vir em paz. Esse e outros dados de violência contra mulher são alarmantes! A sociedade de hoje só foi possível com a luta incansável de outras feministas de outros tempos, mas é necessário continuar a luta.

 

Em Goiânia, a Marcha das Vadias será realizada no dia 07 de julho de 2012. A concentração para a confecção de cartazes será a partir das 9 horas da manhã.  O movimento sairá da Praça Universitária e percorrerá a Avenida 10, Praça Cívica, Avenida Goiás, com encerramento no cruzamento das avenidas Goiás e Anhanguera.

Veja aqui o vídeo de divulgação da Marcha das Vadias em Brasília –DF.

E aqui os cartazes sobre a Marcha das Vadias.

 

Fonte : Facomb

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